Um bilhete para mudar a vida

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Lagos foi, entre 4 e 7 de Março, lugar de encontro (e desencontro) de diferentes pessoas, projectos, organizações que, de diferentes formas, estão ligados à “coisa” cultural. Criadores, programadores, autarcas, poder central, estudiosos e outros, reuniram-se durante estes dias em mais uns Encontros Alcultur, tendo como temas âncora Programação, Mediação Cultural, Públicos. De destacar neste encontro o papel que os autarcas com pelouro da cultura tiveram (ou deveriam ter tido) nestes encontros. De destacar também a fraca, fraquinha, participação de autarcas do distrito.
Enquanto em França há 20 anos que se vendem mais bilhetes para o teatro do que para o futebol, em Portugal permanecemos na luta contra a fraca tecitura cultural. E no entanto, a administração central continua a tentar encontrar linhas de orientação das políticas culturais; os teatros municipais, salvo belíssimas e raras excepções, estão subjugados ao caminho populista da casa cheia; os cineteatros exibem os filmes nomeados para os Óscares, uma ou outra exposição e uma programação ocasional sem qualquer estratégia; a maioria dos “programadores culturais” (figura recente), limita-se a escolher uns espectáculos frente ao computador, à procura do artista do momento, coleccionando tesourinhos deprimentes e esperando agradar a quem lhes paga (a caricatura, embora a subscreva, não é minha é de Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes); os criadores, salvo belíssimas e raras excepções, estão enfornados no seu forno que é o “objecto artístico” esperando que alguém apareça para ver o “objecto” já cozinhado.
E é nesta parafernália de estados de espírito que falamos em formação de públicos e formação pela cultura, mas continuamos a preferir comprar um bilhete para um qualquer jogo de futebol da divisão regional do que um “bilhete para mudar a vida”, nas palavras de Gonçalo M. Tavares.
As autarquias, enquanto promotores da oferta, podem ser o grande propulsor da mudança deste cenário, uma vez que são elas, em comparação com a Administração Central, que mais investem, em termos de orçamento, na cultura (o acréscimo no bolo destinado à cultura nas autarquias aumentou, entre 1987 e 2003, qualquer coisa como 613 por cento, enquanto a despesa da tutela com a cultura tem vindo a decrescer, até a uns míseros 0,4 por cento). E desengane-se quem pense que o Alentejo é a região que menos gasta em cultura, pelo contrário, é das que apresenta um maior peso da despesa com cultura.
No entanto, a qualificação pela cultura não pode ser dissociável da qualificação da cultura. E é aqui que o trabalho das autarquias, donas de cineteatros ou teatros municipais, falha. A obra está construída, toda a santa terra tem o seu espaço cultural, é tempo de apostar nos conteúdos. Uma aposta que seja orientada estrategicamente na definição de uma política cultural local que, preferencialmente, se una em redes (que funcionem) regionais e nacionais, liderada por profissionais exigentes que não reduzam as suas escolhas ao mainstream e ao consumo duvidoso. Cultura e entretenimento não são a mesma coisa. Programação cultural regular, conteúdos exigentes, formação dos profissionais, ligação directa à comunidade em geral, e às escolas, em particular, numa busca constante de audiências, pode fazer com que os teatros deixem de ser templos onde as pessoas têm medo de entrar.
Acredito que a constelação de futuro na batalha pela formação de públicos e qualificação pela cultura se faz de teatros, autarquias, escolas, “fazedores” de cultura e de todos nós, como sujeitos culturais activos. Qual estrela de cinco pontas, simbolizando o Homem integral.
Pena a fraca, fraquinha, participação de autarcas e outros agentes culturais do distrito na discussão destes assuntos. Pena que sejamos dos que mais gastam em cultura, mas pouco invistamos nela.

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