Senhora Feira de Castro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Napoleão Mira

empresário

Está uma senhora respeitável esta multissecular Feira de Castro.
Com mais de quatro séculos de vida, este tem sido ao longo dos anos um acontecimento anual que marcou, e continua marcar, o calendário mais a sul com lugar assegurado para o terceiro fim de semana de Outubro de cada ano das nossas vidas, e de outras vidas passadas.
Quando era fedelho, de calçanito de peitilho e ranho no nariz, nunca me foi dada a oportunidade de presenciar ao vivo este grandioso evento, contentando-me ao tempo, com alguma estrela de figo e amêndoas que me era ofertada, ou em ano de maior desafogo, por um carrinho de lata, que para além das brincadeiras que me proporcionou, me deixou também a sua indelével marca, ao cravar–me no braço o guarda lamas de chapa afiada que me fez um lanho de que ainda hoje guardo memória em forma de cicatriz.
Apesar da mecha com que se vive nos tempos de hoje, a Feira de Castro continua a ser uma data incontornável, para qualquer alentejano que se preze. Esta é uma altura sempre esperada para os inevitáveis reencontros, qual jogo sem regras a que nos predispomos ao atravessar de lés-a-lés o espaço a esta feira consignado.
Ao embrenharmo-nos naquele mar de gente, passamos a fazer parte do cardápio multifacetado de visitantes que, a cada ano que passa, se tornam mais diversificados.
Já por aqui se vêm muitos estrangeiros, visitantes e residentes, vendedores e vendilhões de muitos credos e cores, montanheiros, serrenhos e imigrantes, novos e velhos ricos e pobres aos montes, mas sobretudo, os incontornáveis ciganos, essa orgulhosa nação que são desde sempre a alma da feira.
Com a sua chegada às aforas dos povoados das redondezas, começa o pandemónio para as populações locais, crianças, gado e criação são de mais perto vigiados, até porque a distância a que cada uma das partes se reserva não dá lugar a qualquer tipo de aproximação, o que faz com que a desconfiança e o alerta seja o estado em que os residentes vivem, enquanto a prol nómada não arranca ferro.
Mas esta é uma altura em que determinadas compras especiais se continuam a fazer na Feira de Castro. O cheiro dos pêros inunda o ar de um perfume só experimentado por esta altura do ano. As castanhas, nozes, avelãs, figos e demais frutos secos são uma gulosice e um desafio à resistência do visitante.
Mas nos tempos que correm, esta é a única feira onde ainda se encontram mantas, safões e peliças, varejos e escadas para a azeitona, bancos para malas, tabuleiros, cadeiras e outros artefactos de madeira que fazem a delícia dos novos visitantes.
De entre as manobras clássicas de uma viagem à feira, não podia deixar de vivamente recomendar uma refeição num dos restaurantes ambulantes, que invariavelmente se traduz no pedido de um ou mais frangos assados; não o digo pela qualidade da comida ou do serviço, mas pela viagem que fazemos aos nossos sentidos.
Por aqui passa toda uma massa de gente, enquanto, agarrados à perna, asa ou peito do bicho, ouvimos o estridente e inevitável relato do speaker de serviço da atracção que dá pelo nome de: “Poço da Morte”.
Enquanto o artista rola sobre dois rolos uma velha e barulhenta moto, o locutor apela ao visitante que veja este audaz espectáculo.
– <i>Suba, suba, já faltam poucos minutos para começar. Coragem, arrojo e total desprezo pela vida. Suba e veja com os seus olhos o maior espectáculo do mundo..suba..suba!!</i>
Afinando o ouvido mais para a esquerda, conseguimos ouvir o sempre presente, nesta ou qualquer outra feira, vendedor de cobertores e outros artefactos, que vai carregando o ajudante com uma panóplia de mantas e cobertores, que custam em qualquer lado cinco ou dez vezes mais do que ali.
– <I>Porque compramos directamente às fábricas da Covilhã. Porque não temos lojas chiques, nem empregados pagos a preço de ouro. Só temos este aqui, com cama, mesa, roupa lavada, mulher para dormir e enxada para cavar. (nota de humor)
Cinco dedos temos na mão senhoras e senhores e nenhum é igual (verdade inquestionável). Aqui não paga, mil, nem novecentos, nem oitocentos, nem sequer quinhentos e para quem tiver quatrocentos, para além destes cinco cobertores, mais jogo de cama, ainda leva este magnifico faqueiro, um guarda chuva automático, porque na feira sempre chove, etc..etc..</i>
Este e outros discursos “da banha da cobra” ilustram a paisagem sonora da feira, o que enriquece o momento, que quando termina deixa sempre uma sementinha que demora um ano a germinar e que a cada ano que passa aqui a vimos plantar de novo.
Esta é sempre uma altura do ano em que se fazem comparações: que a feira dantes é que era, que vinha gente de todo o lado, que as barracas de bebidas plantadas à beira da estrada da saudosa feira de Entradas só se levantavam depois da Feira de Castro.
Aí não era raro cantar-se ao despique até a manhã raiar. Os mais velhos recordam-se de uma tal Zéfinha, cantadeira que bebia vinho e aguardente que nem um homem enquanto dava o mote referente ao momento:
<i>Ó Castro se fores à feira
Tráz-me de lá um assobio
Ou de lata ou de madeira
Tráz-me de lá um assobio
Ó Castro se fores à feira</i>

Já que estamos em maré de recordação – dizia-me um velho da minha terra –, ao Madeirinha do Monte dos Merendeiros quando lhe perguntavam porque não trazia a mulher à feira este respondia: – <i>Então pra quem! Divirto-me pela metade e gasto o dobro</i>.
Este personagem gostava tanto da Feira de Castro, que ao seu pai, quando por ele lhe perguntavam, sempre dizia: <I>Enquanto estiver um pau tanxado, para o meu filho, a feira não acaba</i>.
A feira continuará a ser – em termos económicos – a data mais marcante da região das terras brancas. Tendo sido recentemente beneficiada com obras de vulto (sempre discutíveis e ainda bem!), de que pessoalmente gosto, que trouxeram a este espaço uma nova dignidade, tanto plástica como prática, bastando dizer-se que já não regressamos de botas enlameadas o que é um sinal de forte melhoria das condições.
A Feira tem desde há largos anos um programa paralelo de âmbito cultural, de que destacamos o desfile de grupos corais e o encontro de baldão, actividades essas que vêm enriquecer de sobremaneira o inevitável terceiro fim-de-semana de Outubro do resto das nossas vidas que dá pelo nome de Feira de Castro.

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