Velhos do Restelo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

<b>I.</b> Em última análise todos somos conservadores. Todos. A resistência à mudança é um fenómeno por demais estudado, em especial dentro das organizações empresariais. O fenómeno é compreensível e tanto mais evidente quanto as mudanças em questão nos tocam de perto, têm influência no nosso dia-a-dia pessoal ou interferem directamente connosco no plano laboral. A mudança é vista como ameaça, gera desconforto, entra no terreno do imaterial, do que se tem medo. Em maior ou menor grau todos passamos por isto, quando confrontados com a mudança.
A estratégia de mudança (seja a mudança em causa de que tipo for) tem regras, que convém cumprir. Há vantagens evidentes em fazer interiorizar, em todos os potenciais agentes da mudança, as razões da necessidade da dita, há que envolver esses agentes no próprio processo de mudança. Convém ter alguma noção do ritmo possível, resistindo à possibilidade de se ir depressa demais. Cada etapa deve ser sentida e interiorizada, absorvida pelas pessoas que fazem a organização, e só depois esta estará preparada para novo salto qualitativo.
Porque a qualidade é parte integrante da mudança. Imprimir mudanças em qualquer organização sem garantir a qualidade do que se faz e fará é aumentar a entropia, sem se conseguir garantir a qualidade da mudança. Quando se pretende mudar quer-se mudar para melhor, é algo assumido desde a partida do processo. Torna-se, então, fundamental avaliar-se o que se faz, perceber-se os comos e porquês de actos e procedimentos, desconstruindo o conjunto das actividades e reconstruindo-as segundo a nova lógica, com mecanismos de redundância que garantam a sua efectividade. Esta actividade de modelamento, de desconstrução e reconstrução, é forçoso que seja conduzida com o total envolvimento dos actores envolvidos nos processos em análise. Se não o for, tudo falha.

<b>II.</b> Entre muitas outras áreas, a política vai, hoje em dia, beber muito às teorias da gestão das organizações e à psicologia organizacional. Conta-se que durante a campanha eleitoral que o levou, pela primeira vez, à Casa Branca, Bill Clinton tinha, na parede oposta à sua secretária no gabinete de trabalho, um grande cartaz que dizia “<i>It´s the economics, stupid!</i>” (<i>É a economia, estúpido!</i>). Hoje, muito por via da globalização e do neo-liberalismo, mas, também, por valores que serão, eventualmente, muito mais europeus que norte-americanos, convém que quem decide tenha bem presente algo de semelhante. Algo que, percebendo a importância fundamental da economia na vida de todos nós, não dê o primado absoluto aos números em detrimento daquilo que os deve justificar – as pessoas, todos nós. <i>São as pessoas, estúpido(s)!</i>
Em Portugal reinou o laissez-faire. Durante muitos anos, tempo demais. Adiaram-se, até ao limite, mudanças que todos sabemos necessárias. Mudanças que nem sempre serão, pelo menos numa primeira etapa, do agrado de muita gente. Mudanças que são geradoras de alguma sensação de insegurança. Para além da inevitabilidade da mudança gera-se o sentimento incómodo do nevoeiro no ponto de chegada. Tudo isto deveria facilitar a convergência no ponto de partida. E facilitar o dissipar do nevoeiro no ponto de chegada.

<b>III.</b> Assistimos, em diferentes áreas, a uma absurda defesa da resistência à mudança. A defesa cega do que está, a qualquer preço. Mesmo que o preço seja uma caminhada na direcção clara do abismo. Defender os interesses das pessoas não é consentâneo, por vezes, com a defesa dos interesses de grupo, seja qual for a natureza do grupo. E convém não esquecer que o grupo é, ele também, constituído por pessoas. O grande perigo é que, nestas circunstâncias, aumenta incomensuravelmente a probabilidade da impredictabilidade do ponto de chegada. Não há teorias políticas científicas que nos valham. E num contexto destes, o conservadorismo, como reacção compreensível ao temor da mudança, transforma-se no mais absoluto reaccionarismo. E para reaccionário já nos chegou o Velho do Restelo.

<b>PS 1-</b><i> Totalmente de acordo com o que o Rodeia Machado escreveu, nesta mesma coluna, na passada semana. Para que conste.</i>

<b>PS 2-</b><i> Veja-se o que aqui se escreveu sobre a questão das Maternidades. As enormidades ditas pelo dr. Mendes e pelo sr. Sousa. E a resposta que lhes foi dada pelas mães de Elvas.</i>

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