Impressões de uma noite eleitoral

Sexta-feira, 4 Fevereiro, 2022

Vitor Encarnação

Escritor

Nota prévia: Este estudo foi realizado na noite de 30 de janeiro de 2022. Foram selecionados quatro canais de televisão e os resultados obtidos foram ponderados de uma forma totalmente subjetiva e aleatória. A margem de erro máximo é de 50%. Margem perfeitamente aceitável, tendo em conta o desacerto das sondagens efetuadas pelas entidades credenciadas pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

A primeira impressão é de espanto. Como é possível que as empresas de sondagens falhem de uma forma tão clamorosa na previsão dos resultados? Será que deixam cair uns pozinhos de tendência ideológica para dentro das técnicas usadas? Custa-me a crer, mas sinto o mesmo em relação às bruxas.
Segunda impressão. O próprio PS não acreditava em maioria absoluta. Aliás, julgo até que a maioria dos socialistas não teria ficado muito surpreendida se às 20 horas do último domingo as televisões tivessem anunciado o PSD como partido vencedor das eleições. Tudo o que veio a seguir foi um ganho extraordinário, diria até, milagroso. Consta até que alguns ateus se sentem obrigados a ir a Fátima.
A estratégia de António Costa funcionou. Goste-se ou não do homem, aprecie-se ou não o estilo, ele apostou tudo e ganhou à custa daqueles que o apoiaram. Disse a Geringonça: “Até tu, Costa, meu filho?”. António Costa vai ter uma oportunidade de ouro para finalmente mostrar que uma maioria absoluta é benéfica para a democracia e para o nosso futuro económico e social. O que é um facto é que as outras não deixaram grandes saudades. Onde se irá situar o risco que não pode ser pisado? Quem irá controlar esse limite?
Terceira impressão. O centro. É no centro que está a vitória. Rui Rio também o sabia mas esqueceu-se que à sua direita há outros protagonistas. Há muita gente que ora vota no PS, ora vota no PSD. Têm sido essas pessoas que dão a vitória ora a um, ora a outro partido. Conheço pessoas que ponderaram votar PSD, mas tiveram medo de uma possível coligação ou acordo com o Chega e por isso votaram no PS. Conheço pessoas que sempre foram do PSD e que agora votaram no Chega e na Iniciativa Liberal porque recearam um possível acordo entre o PSD e o PS. Foi assim que o PSD perdeu as eleições e que agora se vai tornar num saco de gatos. O Zé Albino anda desolado.
Quarta impressão. Raiou o absurdo o que vi e ouvi de Rui Rio na forma despropositada e insolente como usou a língua alemã dirigindo-se a um jornalista. Foi um arrebatamento intelectual e petulante de quem sabia que tinha deixado de contar. O jornalista perdeu a oportunidade única de citar Fernando Pessoa: A minha pátria é a língua portuguesa.
Quinta impressão. André Ventura foi outro dos vencedores da noite. Conseguiu ficar à frente do Bloco de Esquerda, mas não almejou o que verdadeiramente queria: fazer depender dele uma governação do PSD. André Ventura, acabado de chegar da missa, esqueceu os ensinamentos da igreja e atirou logo a primeira pedra: “António Costa, eu vou atrás de ti agora!”. Quer-me parecer que com 12 deputados já devia ter usado o plural.
Sexta impressão. A Iniciativa Liberal engoliu uma boa parte da direita tradicional. Comeu a carne toda ao CDS e uma fatia do PSD. Acho que o Iniciativa Liberal poderá ser um partido mais perigoso para o PSD do que o Chega. A consistência dos programas e dos ideários políticos, bem como a prestação dos parlamentares esclarecerá esse assunto.
Sétima impressão. Apesar das enormes perdas e dos choques nas estruturas internas, acho que o Bloco e o PCP ficaram aliviados. Podem voltar a ser o que sempre fizeram bem. Fazer oposição é a sua matriz, será essa a sua verdadeira identidade, foi assim que ganharam espaço e protagonismo e é assim que o povo gosta deles. Mas confesso que tenho pena de a Assembleia ter perdido um parlamentar com a craveira intelectual de António Filipe do PCP. Já se encontram tão poucos.
Oitava impressão. O PAN entrou em vertigem civilizacional. O PAN achou que o interior do país, os seus costumes e a suas tradições, seriam purgados de repente apenas porque eram interpretados à luz de uma inteligência citadina.
Nona impressão. O Livre é o resultado de um homem capaz. A clarividência e a sagacidade não têm de andar em grande rebanho partidário.
Décima impressão. O CDS morreu e teve direito a coroa de flores e tudo. Mas alguém se apressou a citar a frase atribuída a Mark Twain: “As notícias da minha morte foram manifestamente exageradas”. Vamos ver.
Décima primeira impressão. Foi divertido ver alguns comentadores políticos a desconstruírem rapidamente o discurso que tinham ensaiado durante semanas.
Décima segunda impressão. A abstenção é a ditadura do laxismo e da negação da cidadania.
Décima terceira e última impressão. É reconfortante saber que cada cidadão fez uma escolha livre. A democracia diz que é da soma do silêncio de cada voto que nasce a voz da liberdade.

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