Felicidade compra-se

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

<b>F – </b>É a cinco, é cinco! Vá lá menina venha ver!
<b>N – </b>(<i>aproxima-se e começa a remexer o amontoado de roupa, fixando-se numa camisola de algodão riscada de decote redondo. Estica-a e coloca-a frente ao seu corpo</i>) Não tem mais cores deste feitio?
<b>F – </b>Há em azul, em vermelho, o preto, e esta em cor-de-rosinha que se tem vendido muito bem.
<b>N – </b>E cinzento não tem?
<b>F – </b>Em cinzento só aquela de decote em bico que custa 10 euros, mas se levar as duas paga-me 12 e pronto, não se fala mais disso (<i>pegando no saco de plástico e metendo já a camisola lá dentro</i>).
<b>N – </b>Aí, não, não! 12 euros não, não posso…depois como as blusas até ao fim do mês…(<i>deixa descair a camisola que tinha colocada na frente do seu corpo para a bancada da roupa prendendo-a levemente por uma mão</i>).
<b>F – </b>(<i>interrompendo</i>) Olhe menina que eu não fico a ganhar nada. Leva aqui duas blusinhas puro algodão (<i>apontando para a etiqueta da camisola</i>) Você não compra material deste a 12 euros em mais lado nenhum.
<b>N – </b>Vá, está bem! Mas levo mais uma destas de cinco e a senhora faz-me as três por 15, pode ser?
<b>F – </b>Menina, se levar mais uma das do decote em bico, faço-lhe as quatro por 20 e olhe que se eu fizer muitas destas quem come blusas até ao fim do mês sou eu.
<b>N – </b>Mas eu não preciso de quatro camisolas…e não posso, não posso. 20 euros dá-me para comer uma data de dias…
<b>F –</b>…Sabe o que lhe digo, menina? Se não comer mais come menos que isto agora o que se quer são moças magras.
<b>N – </b>(<i>hesitante</i>) Também não deixa de ter razão…
<b>F – </b>(<i>compreensiva</i>) Pois, que eles agora se a gente não estiver cá nos conformes vão-se à busca doutras, e o que mais há aí são cadelas de roda deles.
<b>N – </b>(<i>querendo fugir ao assunto</i>) Eu não tenho cá esse problema…
<b>F – </b>(<i>avisando</i>) Não tem agora que ainda é moça. Quando tiver a minha idade vai ver se não tem. E depois de ter os moços de roda da gente e ter de pôr o jantar em cima da mesa todos as noites, a gente perde muita coisa.
<b>N – </b>Está bem eu levo as quatro por 20 euros, mas quero o 36 das quatro.
<b>F – </b>36 não tenho, mas leva o 34 para ter a certeza que não engorda mais uns quilinhos, senão ainda lhe acontece o mesmo que há outra da televisão…
<b>N – </b>(<i>desinteressada</i>) Pois, não sei. Nem costumo ver televisão, aliás, nem tenho televisão (retirando o dinheiro da carteira)
<b>F – </b>(<i>apontando o dedo</i>) Não tem? Como é que você vive sem televisão? A televisão até já dá dinheiro. É só você telefonar para lá e eles dão-lhe dinheiro.
<b>N – </b>Dão-me dinheiro?
<b>F – </b>Sim, senhora. Você pode gastar aqui 20 euros e telefonar para lá e ganhar 200. Eu tenho aqui o número apontado, até lho dou. Marque já, olhe que depois arrepende-se. (<i>mostra o papel onde tem anotado o número</i>)
<b>N – </b>(<i>digita o número e espera largos minutos que a atendam do outro lado</i>)
<b>F – </b>Então menina? (<i>retirando-lhe a nota da mão</i>).
<b>N – </b>Então…? Olhe não só não me deram nada como gastei mais 20 euros em telefone.
<b>F – </b>Pois, acontece menina. Você podia ter ficado com uma bela camisola cor-de-rosinha por cinco euros, mas você achou mal, foi sempre querendo mais e mais.
<b>Nós – </b>Se calhar então o melhor é levar uma dessas cor-de-rosa de cinco euros…
<b>Felicidade –</b>…Agora já não há menina, enquanto estivemos aqui à conversa a ver quem comprava e quem vendia levaram-na todas…regatear comigo é o que dá. Não a apanhou logo quando lha mostrei, ainda tentei meter-lha num saquinho e tudo, mas você não era bem isto que queria.
Agora já fugiu menina, tente para o mês que vem pode ser que eu volte (<i>voltando-se para outra cliente</i>). É a cinco, é a cinco! Vá lá menina, venha ver!

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