Reciclar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Julho. Hora da esturreira. Conversa despejada junto aos contentores de recolha selectiva, enquanto se tenta meter a todo o custo mais uma embalagem de cartão no contentor azul atisbado e observada pela única pessoa que conheço que junta todo o lixo reciclável no mesmo saco e gosta de o separar um a um nos contentores. Amarelo para o plástico, azul o do cartão, verde o vidro, as pilhas são no pilhão.
Ali estávamos a três. A definir o futuro. E eu a pensar, no que irá renascer este garrafão de plástico? Numa perna de uma boneca Barbie? Num utensílio de cozinha, tipo espremedor de citrinos ou num passvite? Numa nova garrafa de água, extraída de outra fonte.
E elas a conferenciar:
– “Então a tua moça já ´tá a trabalhar?, pergunta uma.
– “´Tá, não quis estudar mais, foi trabalhar” – diz a outra enquanto abre o caixote do lixo orgânico e afasta a cara muito rapidamente ao mesmo tempo que encesta, qual Ticha Penicheiro, o saco de plástico dentro do colector verde (isto sim é técnica!)
– “Deixa lá, ainda é nova pode ser que volte a estudar”, comenta a primeira com ar pachorrento ao mesmo tempo que tenta enfiar no atisbado contentor azul, a todo o custo e com muita paciência, milhares de pedaços de um qualquer papel cortado em pequenas e finas tiras em jeito de missão a cumprir.
Retribui a segunda, de fugida e como quem não admite contradições à sua fugaz mas pensada resposta:
– “P´ra quê? As outras que lá ‘tão tiraram os cursos e fazem o mesmo que ela”, e desce a ladeira em passo curto e firme falando com os seus botões, que é como quem diz ratinhando. E a mulher de bata azul continua, punhado a punhado, a esvaziar do saco azul os pequenos, finos e coloridos pedaços de papel dentro do contentor azul. “É a vida!”, comenta para o ar em jeito de lamento.
Mais umas embalagens Tetra Pack no contentor amarelo e, reciclagem feita, digo boa tarde à mulher que continua a despejar o papel e sigo à minha vidinha.
Ficou-me na memória esta cena de três mulheres a conceber o futuro, a definir o modo como vão encarar a vida depois da pausa para despejar o lixo. De forma revoltada mas resignada. Pacientemente fazendo o que se tem a fazer, assentes na premissa da implacabilidade do futuro. Acreditando que as garrafas de plástico podem vir a ser bonecas Barbie, passvites e espremedores de citrinos.
Gosto deste ritual de separar o lixo, ajuda-me a clarificar ideias a tomar decisões, a escolher aquilo que quero para o meu garrafão de água.
Todos acreditamos na Reciclagem, certo? Então por que não acreditar que as garrafas de plástico podem sempre renascer com água de outra fonte? O acelerado ritmo imposto pela vida, o esforço diário para sobreviver “à crise”, a cada vez maior dependência de factores externos para conseguirmos viver leva-nos a duvidar. Pior, leva-nos a nem sequer pensar nessa possibilidade. E assim vivemos nós, a medo, amargurados, carentes e labutando, sempre labutando, quantas vezes sem olhar para os lados, sem pensar na possibilidade de reduzir os impactos negativos, através da reutilização da nossa vontade e da nossa capacidade de agir e reagir e assim Reciclar a nossa vida.

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