As praxes

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Acho que este ano já terminaram, as praxes. As praxes dos institutos politécnicos e universidades, públicas e privadas. E as praxes do “nosso” IPB. A grande orgia litúrgica do ano estudantil. Acho que já acabaram, mas não tenho a certeza, pois vivemos tempos de incontinência praxística. Deve ser da crise, os estudantes preenchem um certo vazio envolvente e que certamente os tocará, praxando e deixando-se praxar. Prolonga-se um carnaval patético e vai-se adiando um confronto quase sempre doloroso com a realidade. As praxes hoje já não são rituais de passagem, a passagem para um universo esforçadamente diferenciado, o universo dos doutores, de capa e batina, na sua pose vertical, solene e altiva, no seu discurso afectado e veemente, deixando os caloiros a fantasiar a excitação de pertencerem também a um mundo onde pelo menos seriam respeitados e invejados pelos caloiros que viessem depois.
Mas não, hoje as praxes são rituais de suspensão, um interregno intenso e colorido na banalidade insuportável da vidinha, e todos se entregam ao fingimento de que aquelas palhaçadas das pinturas, dos cânticos ordinários, dos jogos de humilhação e vexação, significam mais alguma coisa do que a estrita palhaçada, ordinarice e humilhação, consentidas por essa tal crença num significado especial, mas que não existe. A tradição? O espírito académico? A condição transcendente do estudante universitário? Nada disso, rigorosamente nada.
A tradição é um empréstimo, uma importação, uma imitação, uma cópia tão penosamente replicada do imaginário coimbrão. Não convence ninguém, nada credibiliza. Narizes de cera de uma encenação de identidade que não tem nem tempo nem substância nem especificidade para ser algo de único e que valha a pena preservar e reactualizar sob o nome de tradição. O espírito académico é uma farsa que rapidamente se auto-denuncia. Dois ou três jantares de curso para celebrar duas ou três bebedeiras de caixão à cova, e talvez uma manifestaçãozita por ano lá por causa das propinas e do financiamento do ensino superior, até porque o folclore da coisa é engraçado e porque é do dinheirinho que se trata, o tal que fica tantas vezes a faltar para os copos, jantares e noitadas. E a condição transcendente do estudante universitário é para rir. O caloiro mais atento observa apenas o cinto em forma de mini-saia que a doutora traz na sua vaidade pernil, ou a voz cavernosa de obscenidades e vitupérios que o praxista macho ostenta na sua figura ridiculamente grandiloquente de domador de gatinhos assustados. Mas depois no outro dia, quando a capa e batina fica pendurada no cabide, a destilar o fumo e as nódoas de álcool, o caloiro vê a doutora a guinchar histérica com as novidades novelescas da revista “Caras”, e vê o praxista macho a tirar macacos do nariz enquanto vidrado e absorto se delicia com a última contratação do Benfica, manchete do jornal “A Bola”. Afinal são vulgares como nós, pensa, tristemente identificado, o caloiro ressacado.
As praxes enterraram o alcance educativo ou integrativo que muito raramente tiveram. A sua pedagogia traduz-se cada vez mais na divulgação da obediência e da submissão, na inculcação do conformismo e da hierarquização, na celebração do achincalhamento boçal e da violência simbólica e, às vezes, física. É o decadente espectáculo da rasquice, que se estende pelos campus universitários e recolhe os aplausos e risos complacentes de docentes e funcionários, rendidos à inevitabilidade dos tempos que correm.
Não sei se já acabaram por este ano, as praxes. Mas o seu festival deprimente de equívocos e disparates, vai ficar emoldurado no glorioso painel de cortiça dos praxistas, entre outras façanhas fotográficas, como os engates ébrios e as viagens animadas da tuna, e bem guardadinho na memória dos novatos, na sua modalidade benevolente e grata, já sabemos: “Eu adorei a minha praxe, foi muita fixe, bué da curtida. Espectacular!”.
E pró’ ano, ou para o outro, o caloiro extasiado ou, admitamo-lo, nalguns casos, traumatizado, terá a sua oportunidade de devolução e ajuste de contas, na doce transmutação de vítima a carrasco. Para que se mantenha, afinal, a tradição.

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