Tempo de não fazer nada, de descanso, de mojitos, sol, pessoas loiras, areia, bronzes ridículos alaranjados, aumento de impostos, cortes nos subsídios, nas regalias e essencialmente calor. Quer o calor natural da estação que atravessamos, quer aquele fogo de raiva que nos invade o corpo quando vemos, sem que aparentemente possamos fazer alguma coisa, as nossas vidas invadidas por uma crise infindável e sobre a qual das responsabilidades pouco se percebe e das soluções ninguém as conhece.
O Verão em Beja é insuportável e eu lido mal com o calor. Baixa-me a tensão e fico numa espécie de estado vegetativo incapaz de reagir ao que quer que seja. Para piorar a situação, entrámos agora na fase de vazio, que é uma chatice.
O vazio é o período que se segue a uma altura de muito trabalho, de inúmeras coisas para fazer, de pouco tempo, como se o mundo andasse todo em fast forward (não sou grande fã de estrangeirismos, mas acho que não há uma versão em português). A coisa funciona mais ou menos assim: há um período longo de trabalho, mas com um dia para terminar. O corpo e a mente sabem exactamente quando vão poder repousar. E não há nada a fazer: quando chega o dia do fim é como se carregassem no off (ora aí está mais um!). O corpo recusa-se a funcionar, a mente não desperta para coisa nenhuma. Mais grave ainda é o cérebro que, ao mesmo tempo que se recusa a prestar os serviços mínimos, procura o stress, a rapidez, as milhentas coisas para fazer que existiam antes do off ser accionado. Travam-se então batalhas sangrentas dentro do meu magnífico corpo e da minha brilhante mente (trocadilho escrito! brilhante/mente – tem de valer pontos extra!) entre o descanso merecido e a ressaca dos dias anteriores.
O vazio é uma chatice. Conta como consolo o resultado positivo dos meses de trabalho: durante duas semanas tivemos a sala cheia de convidados para o nosso “Jantar” e neste preciso momento, começa a conquista à América Latina. O Revez anda por Havana às “Vueltas” e de seguida ruma à Nicarágua para um festival de teatro.
A vida, pelo menos a minha, é isto: uma viagem constante entre o desespero da velocidade da luz e a chatice do vazio.
Tento agora arranjar uma velocidade cruzeiro: programo estes últimos dias de trabalho, luto para arranjar um plano de férias e penso que na dificuldade das decisões que se me afiguram: estender-me ao sol, absorvendo cada pontinha de vitamina D que conseguir ou arranjo uma sombra e poupo o meu corpo ao envelhecimento precoce? Contento-me com a cor de lula ou arranjo uns bronzeadores automáticos que me dão a cor da moda: cor de laranja?! Esqueço o mundo e a Moody’s ou lanço-me a ler jornais e a ver documentários tentando entender o que se passa à minha volta?
Entre uma decisão e outra, dou uns goles no mojito, estendo-me ao comprido (literal e não metaforicamente) que pensar sentada é doloroso, ajeito a areia debaixo da toalha, mais uma camada de factor 50 e espero que antes de férias acabarem tenha uma solução para o mundo. Para o meu, porque o transtorno psicológico que me afecta e que abarca conceitos como a megalomania, manias de grandeza e superioridade ainda não me permitem a ilusão de Cristo, mas, é só uma questão de tempo. Dêem-me uns aninhos e palpita-me que lá chegarei…

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