A mudança

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

A mudança, o conceito de mudança, a vertigem quase ignóbil de que algo pode mudar, assusta, desde há milénios, os poderes estabelecidos. Os pequeninos poderes, os ridículos poderes de trazer por casa deste animal, dito Homem, que se imagina eterno, imenso, poderoso e único. E é aflitivo, e cada vez mais difícil de entender, as atitudes de determinados actores, que se evocam protagonistas da construção do saber perpétuo, sabedores e depositários dos desígnios de seres superiores e intocáveis. E a nossa história está repleta desses seres incompreensíveis, banais, quase abjectos e anacrónicos em todos os momentos da construção da nossa sociedade. E as igrejas estão cheios de personagens desta estirpe que mais não fazem que arrastar a religião e a igreja, enquanto instituição, para o ridículo, transformando um acto de fé numa espécie de contrato absurdo com o acaso. Escusamos de repetir nomes ou episódios que marcaram dramaticamente a Igreja. Inclusive lembrar os tempos e os personagens que fizeram da Inquisição o sustento espiritual da Igreja. Felizmente esses ventos parecem ter mudado. E houve e há homens ligados à religião e à Igreja que estiveram em todos os fenómenos de luta pela liberdade, pela dignidade do Homem, que estão diariamente na rua a ajudar os mais pobres, aqueles que não têm nada, procurando transformar a sociedade num espaço digno para qualquer Homem poder viver. Mas outros, assentam os seus pés numa lógica tão disforme quanto nebulosa que nos deixam confundidos. Mais uma vez esta semana, um alto emissário da Igreja Católica, apostólica, romana, vem lançar espinhos no caminho do ecumenismo ao evocar “os perigos de uma mulher católica casar com um muçulmano”. E não é um personagem qualquer. É o cardeal D. José Saraiva Martins, que, diz-se, várias vozes defenderam para ocupar o mais alto cargo na Igreja, repetindo aliás o que antes já tinha sido afirmado pelo Cardeal Patriarca de Lisboa. Esta afirmação é ignóbil e recusa entender a história, ignorar a origem da própria religião, e os processos de evolução da humanidade que nos trouxeram até aqui. Vale a pena comparar os dados de violência doméstica em lares católicos, judeus e muçulmanos? E atitudes de caridadezinha dos membros das três, quatro, dez igrejas que pululam por esse mundo fora? E preocupações sociais dos seus “adeptos”? Todo este discurso é ridículo. Mais ainda o reacender duma guerra entre civilizações de uma forma pasmaceiramente básica e irresponsável. E isto não quer dizer que eu esteja de acordo com qualquer dogma saído da cátedra de qualquer igreja. Qualquer que ela seja.

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