2008 – Um balanço

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

O ano de 2008 está a chegar ao fim e, como é hábito nestas ocasiões, somos tentados a fazer um balanço sobre o que foram estes últimos 365 dias.
Ao longo das minhas crónicas aqui no “Correio Alentejo”, não tenho deixado de escrever aquilo que sinto sobre a minha cidade, sobre a minha região, sobre o partido no qual milito há quase 30 anos e sobre o estado em que está o país. Tenho feito, é verdade, deste espaço, uma espécie de livro de reclamações. Não me movem outros objectivos que não sejam a de exercer a cidadania, a de poder contribuir, com mais ou menos críticas, para que esta terra possa progredir e seja o palco onde os seus filhos possam estudar e desenvolver as suas actividades profissionais, seja um território atraente para novos empresários, em suma, que seja uma região onde apeteça viver.
As linhas que aqui escrevo mensalmente não são diferentes daquelas que, quase diariamente, vou deixando no Praça da República, blogue que edito há mais de cinco anos e que, desculpem-me a imodéstia, é ainda um dos meios de comunicação mais lidos na nossa região. Também as palavras que profiro enquanto eleito na Assembleia Municipal de Beja não são divergentes das que vou deixando escritas aqui ou no blogue.
Tenho sido um, entre muitos, dos que criticam o executivo camarário bejense, pela sua incapacidade em ser o motor de desenvolvimento desta região, pois ao longo destes anos não foi capaz de fixar os seus filhos, tem demonstrado inaptidão em atrair investimentos e incompetente em estancar a saída de muitos quadros e alguma massa cinzenta.
As razões das minhas críticas nada têm a ver com a pessoa A, B, ou C. Apesar de alguns encararem os meus reparos e apreciações como “ataques” pessoais, certamente porque pouco habituados ao exercício da liberdade de expressão, apesar de se reclamarem como seus indefectíveis defensores, as avaliações que tenho vindo a fazer são, na sua essência, de cariz meramente político.
Observando o ano que agora termina, seria interessante que se olhasse atentamente para o que foi a política levada a cabo pelo executivo da Câmara Municipal da cidade capital de distrito (CMB), partindo daqui para um balanço das suas actividades.
E, posso garantir-vos, a análise sobre o exercício camarário não é fácil, dado que o comparo com os compromissos eleitorais do PCP em 2005. Não vale a pena, julgo eu, rebater nesta tecla: o PCP vai ser incapaz de cumprir metade (sou optimista) daquilo que prometeu aos munícipes bejenses. Um facto curioso: o PCP/CDU não sentiu necessidade de convocar a comunicação social para fazer um balanço sobre as actividades da CMB ao longo deste ano de mandato.
É sintomático de várias coisas:
<b>1º</b> – A política da edilidade navega ao sabor dos acontecimentos do momento;
<b>2º</b> – O executivo camarário tem os seus meios próprios de propaganda, pelo que não necessita de alguma comunicação social (aquela que não controla) para divulgar as suas actividades.
Olhemos então para 2008 e para as grandes linhas políticas deste executivo camarário:
<b>1</b> – O princípio do ano serviu para que Francisco Santos – presidente da Câmara – viesse a terreiro defender a solução Portela + 1, sendo o aeroporto de Beja o complemento + 1. Nunca se chegou a saber se esta posição foi coordenada com a administração da EDAB ou se foi um acto de seguidismo das linhas orientadoras do Comité Central do PCP.
Aliás, em matéria de aeroporto de Beja, Francisco Santos ainda não desvendou a sua Caixa de Pandora: turismo ou carga? Plataforma para o comércio chinês ou <i>low cost</i>? E, já agora, a fábrica chinesa de pilhas, que prometia 580 postos de trabalho, ficou adiada ou não passou de mais uma ilusão? Uma coisa é certa: Jerónimo de Sousa afirmou que o aeroporto de Beja tem que servir, essencialmente, <i> “como base logística para escoar os produtos produzidos na região” </i>. Resta saber quais e com que incentivos da autarquia.

<b>2</b> – A CMB, decididamente, não acerta com o caminho do turismo. A cidade e o concelho têm tudo para se poder vender lá fora. Porém, a autarquia não consegue fazer uma aposta clara na sua projecção para o exterior. O<i> stand </i>da CMB na Ovibeja foi uma montra para consumo interno e ninguém sabe dizer se ali se promoveu a gastronomia local, se os monumentos históricos ou se os aromas e paisagens da região. Para que serviu toda aquela volumetria exagerada se a mesma não tinha objectivos claros? A propósito: que roteiros históricos foram já criados pela autarquia? Onde está a ligação da cidade ao rio Guadiana e respectivos moinhos?
3 – No aspecto cultural, a Câmara de Beja faz, e bem, o seu papel. Expurga os que não lhe são afectos e promove os seus apaniguados, independentemente da qualidade do produto final. Poderiam coexistir vários tipos de manifestações culturais, mas a CMB prefere desviar os seus apoios financeiros e logísticos de forma a proteger quem seja da cor ou, no mínimo, que não faça estragos políticos. Refira-se, a propósito, que a autarquia bejense dá preferência ao fornecimento gratuito de transporte a manifestantes anti-governamentais a acarinhar – através de contrato de exibição de espectáculos – uma companhia de teatro local, profissional, que tem levado nome de Beja por todo o país e estrangeiro. A cultura bejense vive da autarquia e esta não é isenta nos seus carinhos.
4- O Congresso do Alentejo – em 14ª edição – teve o presidente da edilidade bejense como seu principal cabeça de cartaz. Já poucos serão aqueles que se lembram do que por lá se passou e disse. Esta iniciativa, a que só o PCP dá importância, serviu, mais uma vez, para saber-se o que pensa Francisco Santos da política regional. Quando se comprometeu a discutir a “Estratégia para o desenvolvimento”, “Instrumentos para o desenvolvimento” e “Regionalização”, do edil ficaram-nos gravadas estas palavras: “<i>a regionalização deveria avançar, em 2009, no Alentejo, como projecto-piloto</i >”. Nunca mais lhe ouvi uma palavra sobre este assunto, mas fiquei com a impressão de haver uma vontade de transformar esta região numa coisa cada vez mais isolada, mais distante de tudo e todos.
Não vou ser mais extenso nas minhas apreciações sobre a política autárquica bejense (ou a falta dela). Seria fastidioso relembrar algumas das infelizes atitudes de quem gere o nosso concelho. A realidade do concelho e da cidade está à vista de todos. Cada vez mais longe do desenvolvimento e sempre mais perto da desertificação, Beja precisa de olhar para 2008 como uma experiência a não repetir. Oxalá o próximo ano nos traga novos rostos, novos ares, novas políticas.
<b> A todos os que lêem, votos de próspero Ano Novo

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