Um país exangue

Sexta-feira, 21 Novembro, 2014

José Velez

Vice-Presidente da Câmara de Beja

A Educação é demasiado séria, muito além da não demissão do Prof. Crato, da desagregação ministerial, da saída abusiva de professores/ funcionários, do descuidado e inconcebível concurso/colocação de professores, da manifesta incompetência… com o “veneno” administrado, pioram resultados, caindo altos dirigentes, um diretor geral, um secretário de Estado… Resolvi escrever algumas palavras sobre o assunto. É evidente que sem uma Educação saudável, toda a sociedade acabará por adoecer. Escolhi então um tema ligado à saúde, para pensar o futuro do nosso país. De forma metaforizada, provocatoriamente exagerada em alguns pontos, mergulhei no nosso sistema educativo e nas perspetivas a curto prazo. Desculpem-me alguns erros ou exageros, começando por lembrar John Dewey: “A Educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”.
Recentemente, OCDE e particularmente o PISA, divulgaram resultados muito positivos e surpreendentes sobre a evolução da Educação nacional, nos últimos anos antes da chegada da “troika”. Lamentavelmente, parece que estamos a regredir de uma forma preocupante e acelerada, qualitativa e quantitativamente, do básico ao ensino superior e segundo indicadores conhecidos e projetados dos últimos três anos. Verdade, três anos é pouco em Educação! Todavia, o risco de perdermos em pouco tempo grande parte do trabalho de várias décadas, é inconcebível e até há bem pouco tempo impensável! Deficit, dívida externa, falta de dinheiro, são poderosos argumentos, mas não justificam nem podem servir de alibi a todas as barbáries que tem sofrido o sector do ensino e da formação em Portugal. Qualquer animal de sangue quente pode viver ou simplesmente sobreviver, com menos alguns vasos sanguíneos, com algumas artérias obstruídas, mas por pouco tempo. Todavia, pondo em causa o bom funcionamento cardíaco, aumenta o risco de adoecer gravemente e morrer. Pior, se o sangue for insuficiente ou de duvidosa qualidade, mal oxigenado, morrerá, seguramente, a curto prazo! Numa sociedade moderna que se preze, podemos ver a Educação como o coração, veias e artérias como as escolas e os caminhos da vida. Os jovens são o sangue, garantia de futuro. E o cérebro, poderá funcionar bem sem um coração forte e saudável? Ou sem sangue suficiente? Ou com sangue venoso, com toxinas e deficientes índices nutritivos? Infelizmente, começamos a ter demasiadas arritmias cardíacas. Diminuem-se veias e artérias, algumas entopem-se, outras ameaçam romper-se, outras ainda fecham-se e secam. Ah! O sangue outrora abundante, rico e veloz, corre agora lento, baço e “cansado”. O corpo, melhor, o país quase exangue, não consegue recuperar e substituir devidamente o precioso líquido vermelho. Abrem-se feridas, os rins e o fígado começam a não eliminar o excesso de toxinas. Até os pulmões já não oxigenam o necessário, tal o esforço e a carga de dióxido de carbono que têm de eliminar! Bem, com abastecimentos externos (alimentos) mais escassos e de pior qualidade, mal nutridos e mal oxigenados, são também os órgãos digestivos que começam a falhar, o sistema linfático que falha… O problema agrava-se, não há sistema nervoso que resista! Mas mesmo assim, pensam poderosas mentes iluminadas, desvairadas, que com menos sangue e com menos vasos sanguíneos, haverá menos esforço, menos consumo e menos gastos. “Se trabalhar menos, consumirá menos e se consumir menos fará menos despesa. Que se lixe a qualidade, qual futuro?”. Submissos, os “governantes lusos”, meros chefes de repartição, capitulam sem resistência. Para todos eles, o mais importante são os números do momento, as contas “de mercearia” e a prestar aos credores, quais magos curandeiros, servindo o poder e a alta (?) finança! “Há que comer menos e mais barato. O espírito? Tem avondo com a televisão, com as novelas ou com a Casa dos Segredos. Com sorte, o futebol e o Ronaldo, também ajudam a entreter…” Mas quer-se ir para além das receitas e mezinhas dos curandeiros, exige-se um derradeiro esforço. Incentivam-se purgas de sangue, do melhor sangue que tivermos, o mais difícil de fabricar e de controlar, sobretudo se for jovem! Ofereça-se a quem o queira utilizar. E assim, o povo que “deu novos mundos ao mundo” continua a sua saga, dando agora o melhor do seu sangue, os mais capacitados jovens. De borla e a quem os quiser ou souber aproveitar… O Reino Unido, a Áustria, a Holanda, a Finlândia… A Alemanha, de entre outros “amigos”, prestam-se a esse grande favor! Sorte a deles, desgraça a nossa!… Despudoradamente, vamos perdendo a chama, quase a alma, ficando cada vez mais pálidos e anémicos. Receitam-nos novas mezinhas experimentais. Teremos até a honra de podermos ser cobaias humanas, testando os novos remédios. Os “amigos” emprestam-nos dinheiro para os comprar… A eles próprios. São caros, muito caros e caímos num ciclo vicioso e viciado! Ficamos mais doentes e mais pobres (como convém), mais tristes e dependentes. Da Europa rica, com ironia, vêm-me à memória as palavras de sir Arthur Lewis: “Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento com retorno garantido”.
O coração aguenta? Aguenta, aguenta! Será? Num futuro próximo, que sangue nos correrá nas artérias? Quem assumirá as responsabilidades? Não restará qualquer esboço de remorso, mesmo quando se trata do nosso coração e do sangue do nosso sangue?
E no Alentejo, em Beja? O cenário é talvez mais cinzento. Os jogos do poder e a “política de conveniência” ditam a sua lei. O sangue escasseia, perde-se para outras paragens, para os grandes centros urbanos, para não mais voltar a Beja! Mais discretamente no básico, agudiza-se no secundário, é alarmante no superior!
Responsáveis? Culpados? A resposta iluminada e desvairada, dos gabinetes (des)governamentais, regionais e até locais, ecoa inexorável e cínica: “Responsáveis, culpados? É o povo que gastou muito mais que as suas possibilidades! É a Educação, exigente e esbanjadora! É o pulsar do coração, demasiado intenso! São as veias e as artérias, multiplicadas numa rede imensa, teimando em cobrir todo o corpo! É o sangue que persiste em querer levar ‘vida’ a todas as células, quaisquer que elas sejam e por mais longe que se encontrem!” Continuam filosoficamente: “Há que reduzir, poupar, concentrar em grandes escolas, com menos professores e funcionários! Os mais frágeis, com mais dificuldades ou com necessidades educativas especiais? Não há dinheiro, Isso é coisa de ricos e são fonte de despesa.” Para alguns, quem sabe, “sangue sem grande interesse!”. Pergunto: é para aqui que queremos caminhar? Não pesará a consciência a ninguém?
E todos os outros responsáveis e dirigentes, qual o seu papel? Nós, autarcas, professores, funcionários em geral, pais, avós, empresários, cidadãos? Por alheamento, conveniência, comodismo, interesses dúbios, ou ainda por medo, pouco se tem feito para salvar o doente. A Educação, nuclear em qualquer sociedade evoluída e civilizada vai murchando! Que sangue nos irá correr nas veias? Permitiremos que “quem vier atrás que feche a porta”, porque a luz, essa está quase a apagar-se!
Como afirmou Florestan Fernandes: “Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como a que temos” . Vale a pena pensarmos nisto!

Escrito com o novo Acordo Ortográfico

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