Silly season

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

<i>Silly season </i>é uma expressão inglesa que caracteriza as épocas do ano em que, por inexistência de notícias, os meios de comunicação social se ocupam de frivolidades ou dão desmesurado destaque a temas que no resto do ano passam praticamente incólumes aos holofotes mediáticos. Serve este intróito para tentar explicar a inusitada cobertura televisiva à deprimente participação portuguesa nos Jogos Olímpicos da China.
Não vou comentar a escolha da China para evocar a festa mundial do desporto: não é surpresa para ninguém que a comunidade internacional é intransigente na defesa dos Direitos Humanos nos países pobres, mas sofre de uma comovente cegueira hipócrita quando em causa estão interesses económicos, a célebre diplomacia pragmática, jargão politicamente correcto para escamotear a decadência de valores e princípios. E importa reconhecer que a China demonstrou um imenso esforço: não a “loucura” de acabarem com a censura, ponderar seriamente o Tibete, condenar o trabalho infantil, permitir a liberdade de expressão, mas, o ternurento gesto de retirar os “cães” das ementas, porquanto, o mais grave problema da China são os seus estranhos hábitos alimentares!
Regressando aos jogos em si, foi carinhosa a forma como a sociedade portuguesa, ciclicamente perdida entre o Viagra e o Prozac analisou o comportamento dos nossos atletas, o modo como a medalha de Nelson Évora conseguiu miraculosamente transformar uma olímpica vergonha na melhor participação de sempre nos Jogos! E apenas por suprema injustiça da organização, não recebemos uma terceira medalha, porquanto, o número de circo do Presidente do Comité Olímpico de Portugal, a rábula “do vou-me embora, agora que recebemos ouro fico” era digna do pódio, na prova de ginástica, na categoria de olímpica hipocrisia!
Numa análise fria aos Jogos, importa assumir que a participação lusa foi deprimente! Se formos honestos e compararmos os nossos resultados com os da vizinha Espanha, temos razões para sentir vergonha e declarar D. Afonso Henriques como traidor da pátria!
Mas há razões para criticar os nossos atletas pelas suas participações ou pelas declarações subsequentes? Obviamente que não! No que concerne às declarações, são similares a tantas outras, tantas outras vezes escutadas, quando as irrealistas expectativas se esfumam na dura realidade! No que diz respeito ao seu comportamento desportivo, os atletas fizeram bem mais do que lhes era exigido, num patético país onde nunca se apostou na cultura desportiva, onde os resultados de excelência são fruto do acaso e de atletas fabulosos. Esquecendo o futebol, no Portugal democrático não há nem nunca existiu uma politica para o fomento do desporto. Com a recente excepção do judo, onde me parece estar a realizar-se um trabalho de base que pode gerar frutos no futuro, todas as outras modalidades vivem de momentos épicos, de instantes isolados, sem que os sucessos de hoje sejam o prenuncio de bons resultados no futuro: a maratona masculina terminou com Carlos Lopes, a feminina com Rosa Mota, não há ninguém para substituir Obikwelu, o triatlo português é a Vanessa e Nelson Évora é uma excepção no atletismo “técnico” em Portugal. Ao que fica dito, com pesar acresce, um problema nacional de mentalidade, profícuo num país apaixonado pela mediocridade, incapaz de conseguir lutar por sonhos, agarrado à lusitana pequenez e à falta de ambição.
Admito que haja ainda uma razão suplementar para a escassez de medalhas; mesmo em Pequim os atletas não ficaram alheios aos acontecimentos em Portugal e, temo que ao lerem as notícias, tenham ficado apreensivos; em plena onda de criminalidade violenta, é arriscado regressar a casa com metais preciosos na bagagem!
Não devemos escamotear que muitas das notícias sobre crimes têm como causa imediata a ausência de outras notícias e a guerra das audiências que transformaram telejornais em novelas; mas escrever isto, não é desvalorizar o tema: hoje em Portugal vivemos preocupantes sintomas de criminalidade, que urge serem reprimidos! Exige-se um debate sério sobre a segurança em Portugal!
O apressado e descuidado Código de Processo Penal e a birra Governo-Magistratura Judicial não explicam tudo: desde logo, há hoje um sério problema relacionado com a posse de armas em Portugal. Mais do que outra coisa, se os assaltos são os de sempre, a grande alteração é que hoje todos assaltam com armas de fogo e não temem usá-las.
Por outro lado, e por mais que alguma esquerda se ofenda, o Estado suporta demasiadas pessoas, paga demasiados subsídios a pessoas que ficam com demasiado tempo livre, com politicas de pseudo integração que apenas geram mais exclusão social! Nos bairros periféricos das grandes cidades, milhares de jovens têm como profissão o ócio, sobrevivem de dinheiros públicos e são atraídos para a criminalidade pelo sentimento de impunidade que reina em franjas da nossa população: e não há nada mais perigoso que a sensação crescente de que tudo é permitido, sem que o Estado tenha meios eficazes para impor sanções!
Mas, e mais grave que tudo, não é um Agosto de <i>silly season</i>; o realmente grave é a sensação que vivemos num país onde as tolices de Verão duram o ano inteiro…

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