Sensibilidade e bom senso!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Ana Ademar

actriz

Não deve ser precisa a introdução, mas em todo o caso, para os mais distraídos: Sónia Brazão é uma actriz que, se era desconhecida de alguns, passou a ser reconhecida por todos devido ao acidente em que esteve envolvida. A explosão e o incêndio de que foi vítima valeram-lhe queimaduras graves em cerca de 90% do corpo.
As perícias apuraram que os quatro bicos do fogão e o forno estavam ligados e a actriz terá ingerido álcool e medicamentos em excesso. A juntar a isto, lembremos o quadro depressivo em que se encontrava, a crer nos testemunhos das “fontes” dos jornais e revistas.
Entretanto, Sónia Brazão foi constituída arguida, não por se ter tentado suicidar (ainda não é crime), mas por ter alegadamente, provocado a explosão e o incêndio que causaram dois feridos e prejuízos no valor de meio milhão de euros.
Chegados a este ponto importa sublinhar que alguém que tenta pôr termo à sua vida está, naturalmente, num estado psicológico extremamente frágil. A gravidade dos ferimentos causaram, causam e causarão um sofrimento físico que não podemos sequer imaginar. Acrescentemos ainda as marcas profundas (físicas e psicológicas) que este acontecimento terá na vida e no corpo de uma mulher que é actriz e modelo.
Ora, parece-me que não só o timing é terrível para constituir arguido alguém que se encontra tão fragilizado, como o facto de tornar pública essa diligência é de uma falta de sensibilidade atroz. É óbvio que a investigação tem de ser feita com o máximo rigor, no entanto, não posso deixar de pensar que um pouco mais de tacto, humanidade e preocupação em avaliar as consequências que esta ”abertura” à comunicação social terá na vida desta pessoa, nos levariam a respeitar um bocadinho mais a justiça e as autoridades. Temos de exigir uma justiça justa, eficaz, mas o factor humano não pode em momento algum ser esquecido e neste caso em particular, justifica-se um uso abusivo da sensibilidade e do bom senso.
O jornal “i”noticiava esta semana que há meninas a serem excisadas no Vale da Amoreira (Moita). Parece que a mutilação genital feminina, que inclui o corte do clítoris, é um ritual levado muito a sério pelos guineenses que são cerca de 30% da população do Vale da Amoreira. O único propósito desta tortura é o de impedir que as mulheres venham a sentir prazer sexual.
A excisão tem vindo a acontecer por todo o mundo, mas a sua origem é em África e nalguns países da Ásia. Segundo o mesmo artigo, a “Organização Mundial de Saúde estima que mais de 140 milhões de mulheres, adolescentes e crianças tenham sido submetidas a esta prática.”, na Europa calcula-se que sejam cerca de 500 mil.
Atrocidades como esta deixam-me sem saber muito bem o que dizer, parece-me que os factos são suficientes. Sinto-me forçada a falar nelas ainda assim, porque acredito que ao falarmos nelas, ao tomarmos consciência da sua existência e ainda por cima tão perto da nossa casa, mais facilmente lhes poderemos vir a pôr fim.

Importa sublinhar que alguém que tenta pôr termo à sua vida está, naturalmente, num estado psicológico extremamente frágil. A gravidade dos ferimentos causaram, causam e causarão um sofrimento físico que não podemos sequer imaginar.

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