Alvor

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A claridade nasce de um ventre de alfarrobas e figos. As gaivotas desatam a madrugada e ateiam um fogo de azul nos meus olhos. A lua leva o silêncio com ela e, de repente, os pardais e os melros soltam-se do colo manso da noite e riscam o ar com o barulho dos bicos.
A ria está vazia porque – esta noite calhou assim – a água foi dormir com o mar. Mais logo volta. Mais logo quando o mar já não couber dentro dele, há-de vir inundá-la até aos limites dos canaviais e há-de trazer-lhe peixe para lhe fazer cócegas no lodo. E hão-de passar outra vez a noite juntos, temperados de sal.
Os barcos esperam pelo mar como um cão espera pelos hábitos do dono. Ele há-de vir e há-de levá-lo a passear preso pela trela da maré. Os barcos só não dão ao rabo porque têm proas para sorrir.
Imagino um pescador a descarregar as sardinhas, arrancadas ao mar, na lota de Portimão numa algazarra de gaivotas e turistas madrugadores. Um quilo delas, ao dobro do preço, há-de ser para mim no mercado do Alvor.
As pessoas modernas descansam ainda das festas brancas no areal. Levantam-se mais tarde quando o efeito dos famosos lhes passar. E quando se levantarem já não haverá papo-secos cozidos a forno de lenha, desses que eu levo aqui nas minhas mãos felizes.
Por enquanto, o vento ainda não sopra. Mas no barlavento, o vento não dorme, apenas descansa. O vento é a lei das tardes e as varetas do meu chapéu-de-sol rendem-se e desmaiam na areia.
Com o sol a pôr-se na espuma da cerveja, vejo barcos parados no contentamento dos meus olhos e pássaros pernaltas semeados no bronze líquido da água. Cães vadios chafurdam nos despojos da maré. Línguas estrangeiras rodopiam nas esplanadas. O fumo dos robalos foge para uma rua estreita e desaparece.
Há bancos de madeira, municipais, que foram feitos exclusivamente para esperar pelo crepúsculo. De resto são esqueletos ao sol.
Na ria, a luz é agora uma laranja espremida. Ao longe, expectante, uma nuvem é como uma nódoa no firmamento, um abutre farto de azul.
Quando o sol se enterra na terra, o vento amaina. Se os pássaros se vão deitar, para quê haveria vento!?
A noite tem pernas de bronze, calça saltos altos e veste mini-saia. A noite bebe e fuma. A noite come marisco. A noite puxa fogo a alguns corpos. Outros, de mão dada com os seus cônjuges, observam-nos com baba nos olhos e desejos inconfessados.
A língua inglesa escorre rua dos bares abaixo num suadouro de karaoke, pints, e live music.
A rua dos bares é um coração a bombear álcool para o turismo não morrer.

Uma criança deixa fugir um balão. Cai-lhe das mãos para o céu e desaparece. Ao vê-lo, o vento quis-se soltar, mas a noite não deixou.

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