Regionalização, não obrigado!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

A semana que hoje finda não ficou marcada pelo Congresso do Alentejo! Sendo benemérito e merecendo aplauso todas as iniciativas que procurem pensar o nosso futuro colectivo, tendo este congresso procurado colocar o tema da regionalização no centro de debate, o resultado foi um acto falhado! Com excepção de uma pequena nota de imprensa na Lusa, de um ou outro comentário em blogues e crónicas nos jornais regionais (como o editorial da semana passada do “CA”), o país de Lisboa ignorou as pretensões regionalistas dos alentejanos! E se é verdade que marcar este congresso durante o Euro e às portas do Verão demonstra pouca sagacidade política, não deixa de ser verdade que fosse este congresso realizado no melhor dos calendários, o resultado seria sensivelmente o mesmo: desde há muito que o Alentejo é uma voz muda no panorama nacional!
E a axiomática verdade do que fica escrito, tem sido usado como argumento na defesa daquilo que chamam regionalização, conceito propositadamente híbrido e impreciso, de molde a agrupar divergentes tendências e opiniões. E menos de uma década depois de os portugueses terem recusado espartilhar o país, não faltam as vozes que procuram fazer renascer das cinzas a mítica regionalização!
Ao abrigo de um primado de honestidade intelectual, começo com uma declaração de interesses: sou mais bejense que alentejano, quiçá mesmo, mais bejense que português. E até aceito a crítica dos que me acusam de ter uma visão “bejacêntrica” em detrimento do resto do distrito! Dito isto, deixo claro que se acho uma escolha errada caminhar para a regionalização, sou intransigente na luta contra a regionalização com um só Alentejo!
Não me movem preconceitos ideológicos, pelo que não se pretenda juntar a minha humilde voz àquelas que erguem a bandeira do papão comunista e temem que a regionalização com um só Alentejo nos transforme na “comunolândia”! Se seria (e isto é uma opinião, não um facto) trágico o PCP governar Portugal, é irrelevante o PCP estar no Poder Local! E com toda a certeza que prefiro um bom presidente de Câmara comunista (e no distrito temos exemplos disso) do que um mediano Presidente de qualquer outra cor! No Poder Local a carga ideológica esbate-se. Pense-se no caso do concelho de Beja e analise-se a relação da Câmara local com os grandes grupos económicos: nem com uma lupa ou sequer um microscópio permite encontrar diferenças em relação ao modo como a autarquia e este Governo, que acusam ser de direita, se relaciona com os mesmos!
O preconceito que me leva a rebelar-me contra esta ideia de um só Alentejo deve-se a razões empíricas: no casamento entre Beja e Évora sempre fomos um cônjuge desrespeitado, submisso, vilipendiado nos nossos legítimos direitos e aspirações, sobrevivendo passivamente, sem que se ergam vozes fortes na defesa dos interesses baixo-alentejanos! Regionalizar a uma só voz, tendo obviamente Évora como centro do poder, serviria apenas para acentuar a nossa dependência aos poderes do templo de Diana!
O desenvolvimento da região não precisa de mais uma estrutura politica de pseudo-poder regional, que teria como primeiro efeito útil criar mais um conjunto de pomposos cargos para distribuir entre a partidocracia reinante e, como segunda consequência, incrementar a burocracia num país enfermo de entidades publicas a cercear a capacidade de iniciativa da sociedade civil!
Por mais impopular que seja esta frase, a região não precisa de mais estruturas políticas: uma necessária reforma administrativa deveria começar pela extinção de largas dezenas de concelhos (e no distrito temos três ou quatro exemplos de concelhos que não se justificam), por medidas excepcionais de apoio à instalação de empresas no interior, na descentralização de serviços públicos e não na sua constante e intolerável concentração e, sobretudo, na implantação de uma norma legal que obrigasse as empresas públicas (e algumas privadas) a adquirirem na região onde estão instaladas uma elevada percentagem dos bens que consomem! Desenvolver o Alentejo é apostar nos produtos regionais e conseguir criar estruturas que permitam a sua exportação para mercados fortes, desenvolver o turismo na sua heterogenia única que se estende da praia ao turismo histórico, gastronómico, religioso e cinegético. Dar voz ao Alentejo passa por desenvolver as potencialidades do Alqueva e não permitir que o aeroporto de Beja continue a ser um elefante semi-abandonado!
Mas e mais pertinente que tudo o que fica escrito, urge mudar mentalidades, calar o crónico pranto, afastar questiúnculas mesquinhas e colocar os interesses da cidade acima dos interesses dos directórios dos partidos que, todos e sem excepção, sempre abandonaram o Baixo Alentejo!
É minha convicção que o Congresso do Alentejo foi (mais) uma oportunidade para debater os reais problemas da região! Mas respeito bem mais quem se empenhou nesta iniciativa, ainda que notoriamente pintada de cores vermelhas, daqueles que optam por amesquinha-la, incapazes de oferecer uma alternativa! E porque as regiões administrativas passam pelos partidos, respondo: regionalização, não obrigado!

http://ireflexoes.blogspot.com/

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