Quatro hipóteses

Quarta-feira, 1 Abril, 2015

Vítor Encarnação

Se eu fosse jovem, o que pensaria eu deste mundo atribulado que nos rodeia? Se estivesse a procurar um caminho e a afirmar a minha identidade, como encararia eu a voragem e o desplante contínuo que por aí vai? Se eu fosse jovem e a vida ainda me estivesse a ensinar a viver, como olharia eu para este país em que me coube existir? Teria, talvez, quatro hipóteses: não queria saber e passava ao lado; apesar da minha aparente impotência, marcava uma posição; entrava na corrente e tentava ver se sobrava alguma coisa para mim; ficava em pânico e esmorecia. Como já não sou jovem, mas acompanho jovens todos os dias, tenho vindo, com muita preocupação, a notar que eles optam fundamentalmente pela primeira hipótese. A culpa será deles? Será que são eles que não se preocupam e não querem saber do futuro e das consequências da sua inacção, ou a realidade que lhes é apresentada diariamente é de tal forma má que os afasta de uma participação cívica e social mais activa? Se eu fosse jovem, também precisaria de exemplos e de referências positivas, também gostaria de me rever nos grandes homens, nas grandes decisões, na eloquência das palavras e dos actos. Coisa que não acontece. O que acontece é corrupção, desleixo, experimentalismo, sobranceria, esquecimentos, autoritarismo e principalmente impunidade. E a impunidade é a morte de toda a esperança, de todo o ânimo e de todo o compromisso. Mas acreditem que eu desconfio que esse afastamento dos jovens desinformados e ausentes até é uma vantagem para quem decide e define a nossa vida. Assim não chateiam muito. Tirando as comissões de inquérito, cujos resultados têm vindo a revelar-se perfeitamente inócuos, já pouco incomoda e atrapalha os donos disto tudo.
Mas, se eu fosse jovem, ainda que tivesse de pedir ajuda aos homens livres, tentaria sempre a segunda hipótese.

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