PS e aborto

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

<b>1.</b> Por estes dias as concelhias do Partido Socialista vão a votos. Se, no que se conhece das listas, podemos encontrar um denominador comum, sobressai a existência de listas únicas, a exteriorização de falsos consensos, a deliberada decisão em evitar o debate interno. No caso de Beja, depois de há cerca de um mês três listas concorrentes se perfilharem para uma ida a votos, misteriosas e desconhecidas razões fizeram emergir uma lista de consenso.
Infelizmente, há pouca memória na política portuguesa. Esquece o PS que a maioria absoluta de Sócrates foi precedida de uma complexa luta interna e que o melhor primeiro-ministro do século XX decidiu abandonar o cargo depois de a ausência de debate interno ter minado o seu partido (com consequências ainda hoje bem visíveis), fazendo implodir a possibilidade de nova maioria absoluta.
Os partidos políticos vivem uma crise profunda, com perigos reais para a própria democracia: cada vez mais assistimos a uma “carneirização” das estruturas partidárias, um bando de muitos homens e raras mulheres que interiorizaram a máxima que lhes permite a ascensão nos partidos e a ambicionar com o desejado lugar de nomeação nas esferas de influência: não ter opinião própria e acatar todas as decisões que provêem de um correligionário hierarquicamente superior.
Não deixa de ser inquietante que, num momento em que, bem ou mal, o Governo é severamente criticado na Saúde e na Educação, a Justiça arrasta-se em patamares de misérias, crescem duvidas sobre as políticas de obras públicas, quando cada vez mais se somam as vozes críticas ao Governo (mesmo sem se vislumbrar no horizonte uma alternativa com a menor credibilidade), o Partido Socialista assuma uma posição autista de completa relutância em debater. E é com perplexidade que ouvimos o ainda líder da Concelhia do PS afirmar que está convicto que fez um bom trabalho, mas que sai triste e desiludido, semanas depois de afirmar que era candidato. É caso para perguntar, se alguém quis calar Paulo Arsénio… E não lancem ao vento o argumento de que seria prejudicial e contraproducente a um ano das eleições permitir uma discussão pública: o PS-Beja pode ter esquecido, mas a cidade não esquece nem perdoa o resultado que deu o secretismo das últimas listas autárquicas…
A pouco mais de um ano das eleições autárquicas, a Concelhia de Beja do PS, plagiando uma orientação geral, teve medo de discutir ideias e projectos, fechou-se sobre si mesma num acordo secreto entre os candidatos existentes, deixando cair por terra uma grande oportunidade para decidir a região e a cidade, mostrar aos munícipes que o muro de Berlim bejense não é intransponível.

<b>2. </b>Este mês comemorou-se um ano do referendo sobre mais um dos referendos que os eleitores portugueses decidiram não votar: mas, os resultados foram acatados e foi liberalizado o aborto em Portugal. Quando decidi tornar pública a minha opinião sobre o referendo, chamei-lhe as razões do meu “sim” envergonhado, assumindo que votava “sim”, apesar de considerar a pergunta falaciosa, incoerente, falaciosa e hipócrita, mas preferível a não ter lei nenhuma. Preferia a solução que depois foi defendida por Marcelo Rebelo de Sousa, mas que um texto humorístico dos Gato Fedorento tornou risível, desvirtuando-a com um momento de humor virtuoso, pelo que, tudo isso são factos históricos, desinteressantes para a crónica que hoje assino!
Interessante é perguntar a todas aquelas associações, muitas controladas por partidos, mas algumas saudáveis manifestações de pura, genuína e saudável cidadania (que aplaudo de forma inequívoca) o que fizeram neste ano para combater o verdadeiro drama para qual o aborto não pode ser solução: o que fizeram para combater o flagelo da gravidez indesejada, especialmente na adolescência? Depois de um massacre na opinião pública, sobre a praga das clínicas e vão de escada de aborto, quantas denúncias foram feitas desses locais, que vergonhosamente enriqueceram à custa do medo e receio de jovens e adultas que se viram constrangidas a escolher a opção possível ou o caminho mais fácil? Que medidas, que ideias, que projectos assumiram estas associações para melhorar quer o planeamento familiar, para a consciencialização dos jovens para a importância vital dos contraceptivos, não apenas como meio possível para dificultar uma gravidez indesejada, quer como única forma de impedir doenças sexualmente transmissíveis?

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