Projecto: Pedalando com arte entre a planície e o mar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Luís Miguel Ricardo

Investigador na área de Educação e Formação de Adultos

Num destes dias quentes de Julho, e enquanto percorria a Estrada Nacional 121 na direção Beja-Ferreira do Alentejo, deparei-me com um cenário tão caricato quanto inspirador para a criação de um singular projecto de desenvolvimento para o Alentejo, que conseguisse rentabilizar as infra-estruturas sub-aproveitadas existentes na região e, ao mesmo tempo, mostrar à Europa e ao país o espírito empreendedor dos alentejanos desempregados, confirmando assim a teoria do nosso primeiro-ministro que apregoa as benesses do ficar sem ocupação laboral. E no meu caso específico, só a ele e à sua ilustre equipa de governantes tenho a agradecer o estatuto alcançado, pois até Dezembro de 2011 fiz parte de uma equipa de um Centro de Novas Oportunidades, pertencente à rede nacional, que o executivo tratou de desmantelar a pretexto de se estar a dar diplomas avulso e a certificar a ignorância dos portugueses.
Esclarecimentos à parte, vamos ao acontecimento que acicatou o empreendorismo que habita no meu âmago: em pleno traçado térreo do esboço da A26 circulava um praticante de BTT, no sentido interior-litoral.
De imediato, os devaneios empreendedores começaram a aflorar-me à mente. E à medida que o tempo avançava e os rascunhos mentais se sucediam, a ideia começava a ganhar contornos colossais, como os tentáculos de um grande polvo que conseguem estender-se e unir num só conceito/ projeto uma multiplicidade de valências subaproveitadas.
Ora vejamos as infraestruturas:
1. Existe um aeroporto (cuja primeira pedra, por sinal, foi colocada por um ilustre militante das actuais cores governamentais, mas construído e inaugurado durante legislaturas de outras tonalidades políticas) que o país não quer disponibilizar ao tráfego comercial convencional. Portanto, um aeroporto mais ou menos privado, com passageiros muito selectivos e em escasso número. Logo, uma estrutura aeroportuária altamente segura.
2. Existe uma ampla pista de terra batida que rasga a planície do interior e se prolonga até às montanhas do litoral e que, segundo um ilustre deputado da Assembleia da República eleito por Beja, está repleta de obras de arte ao longo do traçado. Será portanto, uma espécie de galeria gigante, cujas paredes são o horizonte e o tecto o céu luminoso do Alentejo.
Identificados os recursos materiais a rentabilizar, vejamos a proposta de implementação e dinamização da ideia empreendedora:
1. O projecto “Pedalando com arte entre a planície e o mar” seria divulgado nas agências de viagens alemãs (preferencialmente, por vários e óbvios motivos), apelando para a segurança do mesmo (ausência total de represálias dos nativos: quer pelo facto do aeroporto ser exclusivo para eles, quer pela ausência de população ao longo do itinerário proposto no pacote turístico).
2. Desta forma, o aeroporto de Beja, que é uma estrutura sem interesse para a aviação comercial regular (de acordo com as posições tornadas públicas pelo executivo governamental), ficaria afevto exclusivamente ao projeto ”Pedalando com arte entre a planície e o mar”, recebendo os ilustres turistas alemães (preferencialmente).
3. Chegados ao aeroporto, teriam à sua espera uma calorosa receção com produtos da região (promoção gastronómica) e uma rent-a-bike (possibilidade de criação de uma micro-empresa e de um posto de trabalho) com todo o equipamento necessário para a aventura “Pedalar com arte entre a planície e o mar” (bicicletas, capacetes, mantimentos, etc..).
4. Iniciariam o trajecto pela magnífica pista de terra batida, levando um guia com conhecimentos práticos sobre o percurso (possibilidade de criação de um posto de trabalho) e outro com competências reconhecidas e validadas em Arte (possibilidade de criação de um posto de trabalho). O primeiro encarregar-se-ia de zelar pela integridade física dos participantes, escolhendo os melhores trilhos para o contornar dos obstáculos existentes ao longo do trajecto: viadutos incompletos, valas, riachos, ribeiras, um rio – o Sado –, etc.; o segundo teria por missão identificar e explicar as obras de arte existentes ao longo do itinerário (as mesmas que foram descobertas e publicitadas pelo deputado do partido do Governo eleito por Beja).
5. Quando se aproximassem do litoral, e numa altura em que a via deixaria de ser em terra batida para se transformar em asfalto, os dois guias teriam a sua missão mais árdua. Pois era preciso justificar aos participantes o porquê daquela abrupta interrupção do trilho poeirento. Explicariam então que a culpa fora de um tal engenheiro com diploma controverso e nome de filósofo grego, que governara o país nos últimos anos e que, sem sensibilidade para a preservação do habitat, dos hábitos e costumes dos nativos da região, tentou corrompê-los com os malefícios do progresso e da globalização. Uma patetice que o novo executivo governamental ainda veio a tempo de remediar, fazendo cessar a destruição do trilho de terra batida, afugentando os aviões do aeroporto e preservando o isolamento e a identidade cultural dos nativos do Baixo Alentejo.
6. Mas como, certamente, alguns participantes não ficariam totalmente satisfeitos com a explicação e muito menos com a interrupção abrupta da terra batida, o projecto “Pedalando com arte entre a planície e o mar” contemplaria uma forma de os compensar. Assim, em Sines surgiria um polo de uma prestigiada universidade privada portuguesa especializada em reconhecer, validar e certificar competências (possibilidade de criação de dois postos de trabalho: um administrativo para emitir os diplomas e um especialista multidisciplinar para reconhecer, validar e certificar as competências dos candidatos). Deste modo, quando os participantes alcançassem o cheiro a maresia dos mares do litoral, e depois de terem concluído o trajecto durante o qual lhe foram transmitidos conhecimentos sobre: a arte do desenrascanço e superação de obstáculos físicos, a arte de conservação e preservação do isolamento dos povos alentejanos, a arte de sublimação de dados e factos e a arte de analisar e apreciar a estética de instalações artísticas, teriam oportunidade de se propor a validar todas estas competências e, antes de regressarem ao exclusivo aeroporto de Beja, já teriam na sua posse o diploma de licenciatura em Artes Criativas.
Em suma, e como balanço teórico deste projecto, só lhe são possíveis de assinalar virtudes: rentabiliza o aeroporto de Beja; dinamiza os trilhos de terra batida criados no coração do Alentejo; cria postos de trabalho em várias valências; promove as obras de arte existentes na planície; mostra a sensibilidade dos políticos para as questões estéticas; contribui para a auto-estima dos turistas (sobretudo alemães); revela a vontade de Portugal em agradar à Alemanha; estreita as relações governamentais entre os países; e, sobretudo, demonstra o espírito empreendedor dos alentejanos e valida a tese do primeiro-ministro de Portugal – o desemprego é de facto uma oportunidade única para os portugueses, uma espécie de dádiva divina.

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