O tempo arde demasiado depressa

Quinta-feira, 28 Maio, 2015

Vítor Encarnação

Talvez o passado seja a alma do tempo.
Ah, dantes, lá muito atrás, ainda antes de me darem o primeiro relógio, mais cedo do que puberdade, é que eu era feliz. Tinha berlindes de vidro e chupava pirolitos de mel. Tinha livros de quadradinhos, cromos para a troca e um lenço bordado com o meu nome.
Na minha infância, o tempo sabia a leite quente.
Nada me dividia. Nem havia destino. Só sabia em que dia fazia anos porque o bolo era doce e os meus amigos também. E não me preocupava que no aniversário seguinte já houvesse mais uma vela. Não tinha que estar a horas em lado nenhum. Era a fome e era a sede e era o sono que me levavam, tal como levam um cão ou um gato. Não tinha conhecimento do tempo e aparentemente também ele não me conhecia a mim. Era um mundo perfeito. E eu que fiquei tão contente quando me deram o primeiro relógio! Nesse dia, tonto de horas, aprendi o sentido dos ponteiros, achei o tempo e perdi-me. Era um relógio mecânico e se calhar dei-lhe corda em demasia.
Talvez então o presente seja o corpo do tempo.
Digo-o porque a cada instante os pulmões expiram ais e suspiros. Porque cada hora não é mais do que o coração a bombear a rotina.
Porque cada dia parece o sangue a ir e voltar sempre ao mesmo sítio.
Se não tivermos cuidado, o presente não é mais do que um boneco feito de ossos.
E a carne apenas um lugar onde mora a dor da solidão.
Se não nos dermos conta, o malandro do tempo faz de nós um fósforo, palha miúda, uma centelha que é já cinza quando cai, uma bicha-de-rabear que se apaga depois de dar duas ou três voltas caprichosas no largo da nossa vida.
E se nos atrevermos a pôr a nossa existência junto ao peito, às vezes vemos que tudo o que fizemos e sonhámos foi fumo que tentámos prender no céu.
O presente, esse momento de estar a ser, arde como um cigarro que se fuma ao frio.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima