Medos, receios e quejandos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

Inevitável, falar da crise financeira. Em qualquer jornal, em qualquer rádio ou em qualquer televisão, até nos alertas dos sítios noticiosos na Internet, ela está na primeira linha, omnipresente. De que modo vai complicar, muito ou pouco, a nossa vida individual e colectiva é, ainda, uma incógnita. Mas convém que comecemos a tornar claro, dentro das nossas cabeças, que nada vai ficar como dantes.
Parece-me razoavelmente claro que estamos num ponto de encruzilhada civilizacional que se anunciava desde os anos Oitenta, nomeadamente desde a derrocada dos paraísos socialistas da Europa de leste nos finais dessa década. O que é irónico, no meio disto tudo, é que o falhanço avassalador das economias hiperplanificadas dos países então tidos como socialistas deu oportunidade à prova insofismável do falhanço igualmente avassalador do sistema defendido no ponto oposto do movimento pendular – os neoliberais/neoconservadores, herdeiros de Tatcher e de Reagan, mostraram o que valiam, ou seja, nada. Aquilo que deveria constituir o paradigma da renovação do sistema capitalista, a globalização da circulação de capitais de um modo em absoluto não regulado, com uma confiança imensa na capacidade de os mercados se auto-dirigirem, mostrou a sua imensa fragilidade – a ambição do crescimento do lucro, conseguido de qualquer maneira e sempre com dois dígitos de aumento não resistiu à selvajaria que a si própria impôs, e a criação de bolhas de especulação (veja-se o caso mais conhecido dos créditos <i>subprime</i> norte americanos) que rebentaram na boca e nas mãos dos próprios especuladores ditou o seu próprio fim, com o mercado internacional de capitais a estrebuchar por essas bolsas fora, de Nova Iorque a Tóquio. A capacidade de os estados conseguirem, ou não, impedir o efeito dominó, impedindo a falência de pequenas e médias empresas que dependem de crédito acessível como de pão para a boca e que são absolutamente indispensáveis ao tecido socioeconómico dos países e impedindo, também e ao mesmo tempo, a anulação das pequenas poupanças dos cidadãos, ditará o nosso futuro imediato. Foi isso que não foi conseguido em 1929 e foi isso que determinou o aparecimento de ditaduras na Europa como no resto do mundo que chegaram ao poder, não se esqueça tal facto, na maior parte das vezes por via eleitoral.
Claro que os estados dispõem hoje de instrumentos que não existiam há 80 anos atrás. A circulação instantânea da informação é um deles e talvez o mais importante, mas a própria memória dos povos não o é menos – penso que ninguém em seu perfeito juízo, por muito que se situe nos extremos direito ou esquerdo do espectro político, deseja que se repitam experiências como a génese do nazismo ou do fascismo italiano, a segunda Guerra Mundial ou o Holocausto. Vamos, muito provavelmente, assistir a um retornar aos conceitos predominantemente social-democratas, com um reforço do papel dos estados e das suas estruturas de conglomeração (União Europeia, por exemplo) na definição das políticas económicas, não sendo de estranhar que, nesse quadro, se volte a um quadro de renacionalização de sectores económicos estratégicos. A ver vamos. De qualquer modo, duas notas ressaltam ao observador atento: a primeira respeita ao “desaparecimento” súbito de arautos do neoliberalismo, nacionais e não só, e à súbita conversão de outros aos benefícios da regulação, que, até à data, consubstanciava práticas do demo. A segunda nota respeita aos detentores da verdade absoluta, àqueles que culpam, agora, os governos por não terem evitado as repercussões da crise e que os acusam de dela se servirem para esconder a sua ineficiência, como se, num quadro de economia globalizada, a intervenção dos estados fosse ou pudesse ser absoluta. Felizmente que esses nunca terão verdadeiro poder político – já mostraram o que valiam e, seguramente, seriam excelentes coveiros do sistema democrático.
Permitam-me, leitores, que abuse da vossa paciência recomendando um livro que poderá ter um cariz premonitório (espero bem que não o tenha), escrito há três anos por um politólogo e economista que assessorou Miterrand no Eliseu. Trata-se de Jacques Attali e da sua <b><i>Une breve histoire de l’avenir</i></b>, disponível em Portugal numa edição da Le Livre de Poche muito acessível (pouco mais de sete euros).
Uma última nota: que se passará na cabeça da quase muda dirigente do PSD para facilitar, como o fez, a candidatura de Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa? Compreende-se a indignação de Pacheco Pereira face à ressuscitação política do antigo primeiro-ministro. Isto assusta e acho que ninguém beneficia de clonagens políticas, sejam elas nacionais ou de base regional…

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