Livros. Blogues. Surfistinha e afins.

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Escrita: “Arte, acto de escrever”. Escritor: “autor de obra literária ou científica” Livro: “produto intelectual” . Parece-me importante deixar no primeiro parágrafo das linhas que se seguem estes conceitos. Comecemos agora. Ponto final, parágrafo, começa na outra linha.
A generalização dos blogues (cujo significado é algo como “diário da web”), fez entrar nas nossas vidas a vida de milhares, milhões de cidadãos com algo mais ou menos interessante para partilhar. E há de tudo: há os blogues humorísticos, os políticos, os fotográficos, os culturais, os académicos, os desportivos, enfim, uma imensidão de temas que a todos os minutos são introduzidos, comentados, muitas vezes achincalhados, sob a forma de <i>posts </i>na Internet. Ponto um: Toda a gente pode ter um blogue. Ponto dois: Toda a gente pode falar sobre o que quiser num blogue (o critério fica a cargo do administrador do próprio blogue). Ponto três: Nem toda a gente que tem um blogue é um escritor. Ponto quatro: Alguma gente que tem um blogue é, ou poderá vir a ser, um escritor. Ponto cinco: Se tal facto acontecer, das duas uma: demonstradas qualidades literárias chamam a atenção de um editor atento; milhares de consultas a um blogue chamam a atenção de um editor esperto. Ponto seis: Deve esse facto ser suficiente para a edição de um “produto intelectual”?
A brasileira Raquel Pacheco, ou melhor, Bruna Surfistinha, cognome utilizado pela ex-garota de programa, criou um blogue (www.brunasurfistinha.com/blogs), o primeiro de uma prostituta brasileira e, um belo dia, lembrou-se de lançar um <i>post </i>dizendo que gostava muito de escrever um livro. Foi contactada imediatamente por duas editoras. Em declarações ao jornal “Público”, Surfistinha diz: “Sempre ouvi dizer que é difícil editar um livro. Para mim foi fácil”. Desde então lançou dois livros e prepara-se para lançar um filme sobre a sua vida. Em Portugal, é editado pela Presença <b><i>O Doce Veneno do Escorpião. </i></b>E na busca pelo <i>site </i>da Presença, lá está ela, ombreando com outros cujo apelido começa por S: Sá Carneiro, Mário de; Saint-Exupéry, Antoine de; Shakespeare, William; Surfistinha, Bruna.
Mas não só de Bruna Surfistinha vive a blogosfera, nem ao que parece o mercado livreiro virado para “os episódios verídicos e hilariantes da vida de uma prostituta”, como apresenta o livro <b><i>A Tua Amiga </i></b>(editora Palavra) da portuguesa Maria Porto, a Bertrand Livreiros, no seu sítio online. O seu blogue (http://atuaamiga.blogs.sapo.pt) foi o primeiro de uma prostituta portuguesa. Algumas semanas depois do início do seu blogue, milhares de pessoas já o teriam visitado. Veio depois uma entrevista para o jornal “Tal & Qual”, seguiu-se uma chuva de propostas de editoras, veio o primeiro livro e, hoje, a blooger-escritora tem outra proposta para escrever novo “livro” sobre “aquilo que quiser”. Entretanto, diz ela no seu blogue: “o meu livro está a vender que nem ginjas”.
O jornal “Público”, de 26 de Fevereiro, dedicou duas/ três páginas ao que diz ser o novo fenómeno das prostitutas-bloggers-escritoras para concluir que: “Escreve quem gosta ou tem talento para isso”.
Ponto sete: Então mas não servirão os blogues para escrever quem gosta e os livros para quem tem talento para isso? A resposta à questão não será monossilábica, mas este tipo de facilidade só pode ser irritante. Para não dizer ultrajante.

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