Ler a vida

Quinta-feira, 6 Novembro, 2014

Vítor Encarnação

Cada um lê com as palavras que conhece. Os livros e a vida – quem lê sabe que são uma e a mesma coisa. Não há diferenças entre os dois, talvez só as capas que são mais flexíveis do que as mentalidades de quem não lê. Os livros, que parecem ser coisas mortas, têm vida dentro deles. Principalmente os que não estão inertes em estantes decorativas. Os bons, os fundamentais, têm páginas marcadas e anotações a lápis, frases sublinhadas para reforçar a memória, para entender o mundo, andam debaixo dos braços, em cima dos sofás, nas mesas-de-cabeceira, estão ali à mão, abertos, abrindo caminhos, moldando sensibilidades, afastando-nos dos instintos básicos, ajudando a discernir e a tomar decisões. Os homens e as mulheres precisam de ler, precisam de saber ler para serem capazes de interpretar. Os livros ensinam os homens e as mulheres que eles e elas são apenas fruto de uma circunstância, a sua vida não é mais do que uma circunstância, a vida e a complexidade do mundo não se formam no momento fugaz das suas existências. A vida é uma coisa muito antiga, debate de religiões, teses de filosofia, tratados de psicologia, descobertas da ciência, gritos de liberdade, discussões até haver luz. Quem lê livros e aprende a vida com eles não fecha portas, não se fecha em si, não se limita a ser amargamente a sua transitória circunstância. É preciso ler muito porque se não lermos somos meras capas duras sem qualquer conteúdo.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima