Frio

Sexta-feira, 6 Fevereiro, 2015

Vítor Encarnação

Faz frio enquanto escrevo. Às vezes faz frio dentro de mim enquanto escrevo, mas desta vez é real, não depende de mim, não há ninguém de manga curta, nem osgas, nem pó, as andorinhas ainda não vieram, as gatas miam de cio, as pessoas calçam luvas e vestem gorros e deitam vapor de água pela boca. É um frio meteorológico. Vem montado no vento, ganha força na noite escura, enfia-se pelas frinchas das portas, pelas gretas das janelas, vai agarrado aos pés, à sola dos sapatos, aos rostos, enrolado nos cachecóis, dentro dos bolsos dos casacos, no cieiro dos lábios, nas frieiras, nos arrepios, na tosse, na febre. Mas quando entra em casa, as pessoas apanham-no e queimam-no no fogo das lareiras, nas chávenas de chá, no leite com mel, nos medicamentos, nas canjas, nas mantas, nos aquecedores, nos pijamas. E por isso o frio prefere deambular pelas ruas, ficar lá fora, despido, invisível, vadio, em terreno aberto, onde ninguém o importune e o sufoque. O frio poisa no ar, congela as palavras, esconde os pássaros, bate os dentes, esfrega as mãos, come o fumo de azinho, rói as telhas, cola-se às paredes, envolve as luzes dos candeeiros, cala os cães, queima as flores. Como o frio é mudo, pede ajuda ao vento para falar. O vento é a voz do frio. E aos gritos lá vão os dois, rua abaixo, abraçados, bêbados de invernia. E de noite o frio deita-se no chão, encosta o peito gelado às ervas, às hortas, aos vidros dos carros, à água dos tanques. Não é geada, é apenas o frio cansado a dormir.

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