Francisco

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Francisco todos os dias passa todas as tardes sentado no mesmo banco de sempre, esperando, pacientemente e sem pressa, que a morte o leve para o seu ultimo destino! Ao seu lado, outros Franciscos esperam pelas suas mortes, embora muitos deles, demasiados deles, já há muito esqueceram que estão vivos!
A mulher de Francisco deixou-o há alguns meses, depois de esgotar as forças a lutar contra a doença que leva tantos, uma estúpida epidemia que, incompreensivelmente, os avanços na ciência são impotentes para castrar! E desde esse fatídico dia que Francisco também morreu, apesar de andar por aí! Porque quem apenas sobrevive, já deixou de viver!
Francisco vive de uma miserável reforma, numa casa enxuta, desprovida de luxos, com paredes a pedir carinho, mobílias velhas de uso, uma morada simples onde a televisão foi uma prenda usada e gasta de uma sobrinha, sem sport tv`s, sem nunca ter percebido o que é isso da Internet – porque a administração publica, perdida num desvario tecnológico, esquece que nem todos os portugueses vivem no facebook. –;
Francisco come aquilo que uma IPSS lhe deixa em casa, tem a sorte de ter uma velha comadre que por piedade e alguns euros lhe cuida da roupa e lhe vai arejar a casa, porque tem o privilégio de ter três filhos – dois por Lisboa e outro que perdeu para a emigração – que mensalmente mandam um punhado de poucos euros, que alimentam a desgraça do velho pai!
Francisco não se queixa da vida! Porque tem memória e recorda os seus pais, porque tem a lucidez de recordar o passado, os tempos não longínquos onde não havia pensões de sobrevivência, onde os médicos só chegavam aos ricos, onde a comida era muito escassa e carne apenas se comia em dias de festas, os tempos onde era impossível aquecer uma casa, os tempos em que nem roupa havia para esquecer o frio! Francisco não se queixa, porque nasceu e viveu pobre e, apesar de pobre, vai morrer em muito melhores condições do que os pais viveram!
Francisco teve uma vida sofrida, sempre entre a miséria ou, quando as coisas corriam bem, na pobreza mas, como toda a sua geração, viveu muito melhor que a geração anterior! Mas nos dias de Inverno, quando o frio da chuva o faz recluso da sua casa inóspita, Francisco recorda a miséria do tempo dos seus pais, que sempre partilharam a penúria com outros pobres de pedir, mas ricos na generosidade e alegria!
Francisco tem um segredo que não partilha com ninguém, daqueles que de tão seus, nem às paredes confessa, porque no tempo em que era ainda petiz alguém lhe ensinou que os homens não sofrem nem choram, pelo que, nem ao velho padre ou ao mais íntimo compadre consegue dizer, que todos os dias tem medo de morrer sozinho, de ficar isolado na agonia de ninguém o socorrer, esvaziando-se a vida na solidão surda de ninguém ouvir o seu último e desesperado grito!
Francisco não tem estudos, não tem consciência política, não percebe muito de coisa nenhuma, mas pergunta-se quando a madrugada o acorda ainda demasiado cedo para se levantar e nada fazer, que sociedade é esta onde se dão migalhas aos velhos e lhe prolongam a vida, para aumentar o triste vazio da sua solidão!

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