Do alto do maciço calcário se vê o futuro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

Do alto da serra, em pleno Parque Natural das Serras de Aire e de Candeeiros vislumbra-se um horizonte vasto, um horizonte verde em que despontam nos seus pontos mais altos alfloramentos calcários, e nas depressões circundantes dispersos casarios. Nas suas entranhas esta paisagem esconde galerias esculpidas pela água, que é apenas mais uma das suas riquezas, a par da pedra que durante anos e anos levou a que se escavasse na rocha abrindo clareiras que se apresentam hoje quais feridas abertas na serra. Lá no alto fica a aldeia de Chãos, terra com cerca de 70 habitantes, que resiste ainda e sempre ao fim inevitável que algures no tempo o destino lhe havia reservado.
Resiste porque se envolve, porque acredita, porque não deixa de olhar com astúcia para as potencialidades de que dispõem, transformando-as em efectivos recursos, contra todas as adversidades que se atrevem surgir. E tudo começou a dançar. O Rancho Folclórico de Chãos constituiu-se em 1984, para preservar e valorizar uma herança cultural que desapareceria com o tempo, uma herança que confere a esta comunidade uma identidade. Mas o pormenor que fez toda a diferença reside na maneira como encararam esta herança, como um ponto de partida para unir a comunidade em torno dos seus problemas, como factor de agregação para construir soluções de sustentabilidade, de criação de emprego com base nos princípios e nas práticas da economia social e solidária. Depois do Rancho surgiu a Cooperativa Terra Chã, a outra face da mesma moeda, e com esta nasceu o Centro de Acolhimento, o Restaurante, o Centro de Artes e Ofícios, começaram os projectos de formação, de recuperação dos percursos pedestres a partir das Rotas dos Pastores, do património geológico, a criação de espaços-recurso entre outros. Toda esta dinâmica é desenvolvida numa área protegida, classificação esta que foi entendida, antes de mais, como uma oportunidade. Onde os outros vêem constrangimentos os homens e as mulheres de Chãos vislumbraram recursos para construir um caminho de desenvolvimento assente no Turismo de Natureza, na recuperação e valorização da gastronomia local e dos produtos locais. Proteger não significa abandonar, significa aproveitar de forma criativa o que a sociedade no seu todo já valoriza, sociedade esta que se apresenta disposta e interessada em trilhar a pé os percursos da serra, visitar as grutas e a deliciar-se na paisagem a perder de vista que a localização do Centro de Acolhimento e do Restaurante nos oferece.
E tudo isto é possível, não é utópico, porque a aldeia não está sozinha. Todo o projecto de Chãos é sustentado num diálogo permanente com a região e com o país, não se perdendo a oportunidade para ir além fronteiras desenhar os novos contornos dum trabalho fundamental de parceria, de articulação em rede com outros projectos de desenvolvimento, com investigadores e académicos, com outras pessoas e organizações cuja experiência justifica troca e intercâmbio. Esta disponibilidade constante para aprender, a vista larga no horizonte, pode derivar da localização sobranceira da povoação, habituada a ver para além dos seus limites, mas não deve ser apenas disso. É uma atitude que se alimenta e se transmite graças à vontade dos que nela investem e depositam esperança. Por essa razão, não é de admirar que mais uma vez passe por aqui, o processo de formação de jovens de todo o país, que em conjunto com dezenas de associações de desenvolvimento local portuguesas vão construir a grande mostra do Desenvolvimento Local, a MANIFESTA 2009.

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