De olhos em bico III

Sexta-feira, 16 Abril, 2021

Napoleão Mira

Escritor

Para quem não tem seguido estas crónicas folhetinescas das minhas andanças por terras asiáticas, aqui fica mais um relato de vos deixar os olhos em bico.

(continuação…)

Regressemos pois à limpeza de casas, hotéis, restaurantes ou ruas.
Como já afirmei, não existem caixotes do lixo espalhados pela cidade porque, simplesmente, os cidadãos deste país não o fazem e, quando tal acontece, carregam-no consigo para o separarem em pontos específicos ou para o levar para casa, onde têm um horário a cumprir na recolha desses inertes.
Nas ruas não vi um único papel no chão (e já percorri meio Japão!), um só pedinte, um ser andrajoso ou mesmo um único sem-abrigo. Dou comigo a pensar que esta gente deve estar a fazer alguma coisa de certo para que a sua sociedade tenha estes níveis de satisfação social.
Bem sei que nem tudo será como aparenta ser e eles lá terão as suas lamentações. Todavia, quando penso na nossa realidade comezinha, estou seguro de que muito temos a aprender com esta gente, começando na esmerada educação de novos e velhos, onde toda a gente respeita o lugar de cada um.
Mesmo a juventude que, pela sua natural irreverência, tem sempre tendência em romper as regras instituídas, nota-se-lhes um respeito pelo seu povo e pelo seu país como ainda não encontrei noutra latitude e, nomeadamente, no país de onde venho.
Como é de calcular, temos passado muito tempo em transportes públicos, maneira única de nos deslocarmos com facilidade. Já com 11 dias de Japão, vamos entrando na rotina destas gentes.
Já me referi abundantemente acerca dos transportes, mas não me lembro de ter referido a quantidade e pontualidade dos mesmos. No metropolitano não me lembro de ter esperado mais de três minutos pelo comboio seguinte e a hora de partida anunciada… estupidamente pontual!
No caso dos comboios ou autocarros, sendo que a assiduidade é ligeiramente mais espaçada, continuam a ser pontualíssimos.
Outra preocupação que me sobreveio foi o da segurança. Nas estações a sinalética é a adequada para a boa fluência dos passageiros, os avisos sonoros relembram-nos a melhor maneira de nos comportarmos e, como se não fosse suficiente, existem solícitos funcionários que zelam pelo bem estar dos milhentos passageiros, bem como do desaguar sem sobressaltos das massas humanas que aportam a cada estação.
Existem diferenças culturais que me causam algum espanto. Dou como exemplo o ato de assoar. Aqui no Japão é sinónimo de má educação enquanto que sorver a sopa em público é sinal de que, para além de quente, está saborosa; existindo mesmo restaurantes conhecidos por este peculiar sonido. Li algures num guia turístico que recomendava determinado restaurante e que apregoava esta particularidade que, noutras latitudes, tem o mesmo significado que assoar em público.
A dependência do smartphone é algo gritante por estas bandas. Acredito que dentro desses quase milagrosos aparelhos estejam muitas das nossas necessidades. Aprovo mesmo que uma elevada percentagem dos passageiros a ele recorra para se entreter durante a viagem. Aceito que  a moderna tecnologia é irreversível, portanto, parte do nossa dia a dia por agora e para sempre. O que se me torna difícil de aceitar é a quase ( 99 em cada 100) totalidade das pessoas, novas e velhas, homens ou mulheres, adultos ou crianças terem no tal aparelho uma espécie de prolongamento dos seus dedos, quase como que o smartphone fizesse parte de si.
Viajar é também apreciar. Eu, bicho curioso que sou, dou-me conta de que existem milhentas fardas Japão fora. Uniformes para todos os gostos e feitios, sendo que os que mais me impressionaram foram os dos funcionários dos caminhos de ferro. Alguns deles parecem-me pilotos de avião tal o porte com que se apresentam para desempenhar o seu metier. Qualquer segurança de centro comercial, fiscal mais ou menos obscuro, motorista de autocarro ou de táxi, todos, mas mesmo todos, usam uniforme de tal forma aprumado que mais me parece estrearem um novo todos os dias. E, para compor o ramalhete, usam nas mãos um par de imaculadas luvas brancas que dão aos seus desempenhos um ar de pomposo cerimonial. Tal pormenor, empresta às suas profissões uma dignidade só imaginada por estas bandas.
Curiosamente, não me recordo de ver forças da autoridade armadas, ou mesmo carros de polícia de um lado para o outro, como é uso noutros países. Sinal de que não necessitam de se mostrar para exercer o seu papel ou será também um sinal de uma sociedade evoluída que caminha a passos largos para a paz e para o respeito?
Sim, já o disse e afirmei, que este país e esta gente excederam as minhas expetativas. Que o que sabia do Japão me levavam a concluir ir visitar um país que estaria na dianteira da melhor tecnologia de ponta e que mantinha um certo equilíbrio entre a tradição e a modernidade.
O que estava fora das minhas cogitações era o de encontrar um povo dócil, afável, respeitoso e, acima de tudo, disponível para o outro.
Ainda ontem, já de noite, depois de um dia inteiro a viajar, “aterrámos” em Kanazawa, no meio da cidade, depois de despejados pelo autocarro na estação que nos disseram ser a nossa.
Chovia a bom chover. Derrotado de um dia de muitas centenas de quilómetros, mala na mão, mochila às costas, guarda-chuva aberto na outra e um mapa onde não conseguíamos descortinar o nosso destino final, o Hotel Pacific.
Abeirei-me de uma jovem que ia apanhar a sua bicicleta para ir para casa e pedi-lhe ajuda. Solicita, educada e sorridente saca do seu smartphone e procura a localização que buscamos.
Quando a encontra, em vez de nos indicar as direções pergunta-me se nos importamos de a seguir. Largou a bicicleta, abriu o guarda-chuva e assim fomos todos… em carreirinho. Pensei que era uma coisa de alguns metros (dezenas ou centenas,talvez!), mas a moça lá nos foi guiando por ruas e mais ruas durante uns bons 10 minutos até chegarmos ao nosso destino.
Se fosse a primeira vez, seria uma exceção, mas esta já é a enésima vez que tal acontece.
Agradecemos à jovem japonesa e eu fiquei a matutar naquela atitude de uma jovem que, numa noite fria e chuvosa de dezembro, se disponibilizou a ajudar quatro viajantes meio perdidos numa cidade que à luz do dia será muito mais fácil de descodificar.

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