Criança

Sexta-feira, 24 Julho, 2015

Vítor Encarnação

Numa criança tudo está por definir, tudo é uma possibilidade. É esse o maior entusiasmo, mas também o receio, de quem a ama. Cada criança é sempre o princípio do mundo, é o mundo a nascer outra vez e a reinventar-se. E ao olharmos para ela, principalmente se a amarmos, vemos e sentimos a harmonia e a pureza, esses anjos que vão caindo em desgraça ao longo da nossa vida.
O que irão ver aqueles olhos que ainda não viram quase nada? Que horizontes irão abrir e que livros irão ler? E irão olhar sempre de frente para as coisas e olhar olhos nos olhos? O que irão aquelas mãos agarrar e que coisas se escaparão por entre aqueles dedos? E os braços, que força terão eles, que abraços darão, até onde conseguirão chegar? Serão asas ou pesos? E as pernas, onde as levarão elas, que caminhos trilharão, até onde vão, a que lonjuras? E os lábios, que beijos darão, em que outros lábios? E a boca, será que irá semear palavras dentro dela e delas fazer poemas? E o coração, por quem irá bater, por quem irá sofrer ou gritar de contentamento? E os sonhos serão do tamanho do mundo? E terá alma e raiz e identidade? E no peito caberão muitos amigos?
Uma criança tem o mundo fechado na sua inconsciência e é o devir que o vai abrindo lentamente. Um dia após outro, passo atrás de passo, palavra após palavra. O que irá ser, como irá ser. Quanto mais pequenos somos, mais ambicioso é o que projectam para nós, quanto menos passado temos, maior é o futuro. É assim a vida, é assim a história das sementes. Da erva até ao restolho.

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