Cavaco e os botões

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Onofre Varela

jornalista / cartunista

As estações de televisão anunciaram: o presidente da República vai falar a todos os portugueses. A comunicação em directo abriria os jornais nacionais dos três canais. Não restava dúvida: o caso era importante!
Naturalmente, os portugueses que sentem todos os casos importantes do país a reflectirem-se no seu bolso, na diminuição do poder de compra, indagaram: o que há de tão importante para comunicar ao país? Só a economia, concluiram. Viver está cada vez mais caro, com os aumentos nos preços dos bens de consumo, da energia e dos juros de empréstimos bancários a pedirem solução drástica para acudir a este povo com os salários mais baixos da Comunidade Europeia. Mas também a criminalidade e o vandalismo, os problemas da Educação e da Saúde, a corrupção autárquica, empresarial e desportiva… Na verdade, estão reunidas razões bastantes para preocuparem o presidente de qualquer república, ou o rei de qualquer reino.
À hora do telejornal eu lá estava, de olhar pregado à televisão, esperando a palavra de um barra catedrático em economia.
Cavaco falou… e eu fiquei sem palavras! Não percebi patavina do seu discurso!…
Ou eu sou estrangeiro, ou ele não falou português!… (E não. Falou <i>estatutês </i>e <i>presidencialês</i>). Para entender o discurso precisei de ouvir os comentaristas que lhe seguiram. O primeiro, na RTP1, foi o jornalista Mário Bettencourt Resendes. Ele estava como eu, coitado! Percebia-se na sua expressão e nas suas poucas palavras, que não tinha ido lá para ouvir aquilo!…
Depois, à medida que fazia “zapping”, ouvi vários analistas e lá fui percebendo as verdadeiras preocupações do Presidente da República. Preocupações que não têm nada a ver connosco, mas sim com ele, com os seus poderes constitucionais, e que poderão preocupar, também, alguns açoreanos… mas não todos.
Perante isto remeti-me à “sorte-azar” de ter nascido no país de Camões. Sorte porque não nasci no Zimbabué; azar porque não nasci na Suécia! E cogitei sobre os interesses políticos e económicos dos nossos representantes no poder que, salvo melhor opinião, pensam mais no particular do que no colectivo e, por isso, estamos como estamos, vivemos como vivemos, e roemo-nos de inveja quando nos falam da ordem e do civismo nos países nórdicos e na Suiça, mas fazemos ouvidos de mercador quando nos informam das obrigações fiscais e cívicas a serem escrupulosamente cumpridas pelos respectivos povos. E lembrei-me de ter passado por uma situação idêntica em 1966 ou 67.
Cumpria o serviço militar em Angola quando chegou a notícia de um Inverno violento ter inundado e enlutado o Ribatejo. As novas que chegavam às terras dos Dembos davam conta da necessidade de ajuda para um enorme número de famílias. O drama foi sentido pelos soldados e criou-se espontaneamente um movimento que defendia a seguinte ideia: se todos os militares destacados em África oferecessem, no mínimo, dez escudos do seu pré para as vítimas da tragédia, a ajuda seria substancial!
Por esses dias, o capitão-comandante mandou formar a companhia sem informar a razão pela qual o fazia. Naturalmente pensamos naquilo que mais nos preocupava no momento, e todos estávamos prontos para dizer um imenso SIM à dádiva para acudir ao Ribatejo. Para nós era evidente que a chamada à reunião da Companhia só podia ter essa intenção.
Estávamos no mato, onde nunca tinha tocado a reunir em formatura… a guerra de amanhã não era diferente da que fizemos ontem… que coisa mais importante haveria naquele momento, que não fosse pedir a nossa participação cívica para ajudar a resolver um problema nacional?
Formámos. O clarim tocou a sentido. E o capitão, de bigode cuidadosamente mais retorcido, apareceu fardado a rigor e com cordão dourado a pender do ombro. Depois cumpriu a única intenção que o levou a ordenar aquela formatura: passou revista ao fardamento das tropas, castigando a falta de botões e as nódoas no peito das camisas!…
O discurso do presidente da República, no contexto económico e social em que vivemos, recordou-me esses botões… e as mesmas nódoas!…

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