Cante

Quinta-feira, 8 Outubro, 2015

Vítor Encarnação

Entre o princípio e o fim, entre o nascimento e a morte, entre o ventre e a cova, entre a terra e a terra, os homens e as mulheres sentem a necessidade de explicar a vida. Não podemos passar por ela em vão, encostados a um canto, mudos, condenados ao pó, à insignificância e ao esquecimento. E tão depressa passa uma vida! É preciso senti-la pulsar dentro das veias, olhá-la de frente, olhá-las nos olhos, desafiá-la, enfrentá-la, entrar em despique, ser ponto e ser alto, segundas vozes, mas sempre, sempre a cantar. Como de pão para a boca, os homens e as mulheres precisam de mostrar a alma, contemplar o mundo, precisam de exprimir a alegria que os anima, a mágoa que os entristece, a solidão que os aperta e sufoca, o chão que os sustenta, o passado que os define, o céu que os cobre, o horizonte que os puxa, o tempo que os vai matando. Os homens e as mulheres foram feitos para existirem de pé, verticais, de espinha direita, de peitos orgulhosos e gargantas abertas. E mesmo que os corpos verguem, as vozes nunca vergam, porque vêm entrelaçadas e são feitas de azinho. O cante é uma partilha, um enlace, uma confissão em grupo, nada nele é solitário. Ninguém vive e ninguém morre sozinho. E é por isso que os homens e as mulheres do Alentejo se juntam para cantar. E cada um deles e cada uma delas traz o seu silêncio, as suas cismas, os seus amores e os seus desgostos, a lonjura, a terra plana, as serranias, os montados, a imensidão, o sol ardente, o vinho, o pão, as estevas, a pronúncia. De pé, lado a lado, um único corpo, a mesma herança, as mesmas raízes, o mesmo sangue. E no cante conseguimos ver a cadência de uma jorna de apanha da azeitona, da ceifa, da monda, de tirar cortiça, o ritmo lento de uma faísca de Verão, a nudez dos restolhos, um fim de tarde ao balcão de uma taberna, um petisco à sombra de uma parreira, as saudades da juventude, o suor nos lenços, o saber a terra na boca.
O cante é o som da nossa identidade. O cante é o abraço das nossas vozes.
O Grupo Coral de Ourique fez 68 anos. Muitos parabéns.

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