Cabeça à direita, coração à esquerda

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Estou a passar uns dias na casa da presidente de uma Junta de Freguesia do distrito de Beja. Não sei se há muitas mais presidentes de Junta, não sei se há mais alguma. Talvez devesse haver. Pelo menos, iguais a esta. Ou parecidas a esta.
Dizia-me ela antes do jantar que tem a cabeça à direita e o coração à esquerda. Dizia-me isso com a perplexidade que quem acha que os contrários político-ideológicos não se podem conjugar assim tão proximamente (talvez uns 30, 40 cm um do outro) e tão organicamente (parece que um não funciona lá muito bem sem o outro). Dizia-me ela com a estranheza que lhe chega dos que acham que tal conjugação não encontra sentido nos padrões convencionais que classificam os políticos: “Ó porra! Ou é de direita, ou é de esquerda, ou, pronto, vá lá, é do centro”. Mas dizia-me ela a sorrir, porque no fundo está a marimbar-se para isso; é como se sente: cabeça à direita, coração à esquerda. Até podia ser o inverso, também era possível, claro. Cabeça à esquerda, coração à direita. Ui! Se os há assim, pululam, não é verdade? Mas ainda bem que não é o caso, pois certamente não estaria aqui a passar uns dias, dias que me estão a saber muito bem.
Esta mulher, presidente de Junta, é vaidosa. Não do que tem, mas do que faz. Pudera! Também eu seria vaidoso, ou orgulhoso, ou qualquer coisa destas. Ao jantar conta as dificuldades da terra, as dificuldades orçamentais, as dificuldades que sabemos. Conta mas sem queixume, sem acomodação. Porque vem logo a seguir a “ginástica” que faz para contornar e ultrapassar as dificuldades: pede a quem tem e pode, insiste, dá a volta, volta a pedir, a insistir, e consegue. Podia passar o tempo a lamentar-se, mas não. Ou a choramingar a fatalidade, mas não. É vaidosa, pudera! Também eu seria. Ao jantar o marido ouve-a com atenção. Eu também. Ela fala muito, ela não é vaidosa, gosta apenas de partilhar com entusiasmo as coisas pequeninas e grandes que vai conquistando. Fala muito ao jantar, apesar de ter acabado de chegar do ensaio do grupo de teatro que ela também encena e produz e tudo o resto… Apesar de já não ser nova, apesar dos problemas de saúde. Muito embora isso tudo pareça pesar quase nada. Não é vaidosa, fala é com brilho nos olhos e o rosto afectado, das coisas que lhe nascem das mãos, e do coração, à esquerda. Coisas justas, importantes, valiosas, humanas. Coisas que não têm esquerda nem direita. Coisas que são boas, que fazem bem, que fazem uma povoação sentir-se vaidosa da senhora presidente da Junta. Pudera! Também eu me sentiria habitante vaidoso, tivesse eu a cabeça à direita, à esquerda, ou ao centro, ou em lado nenhum destes lugares que tantos dizem frequentar com a mesma convicção com que o fazem equivocadamente.
Fomos dar um passeio depois do jantar, para desmoer. A noite estava quente. A aldeia estava calada e sossegada. As pessoas respiravam paz, sentadas à porta de casa, paz e simpatia. E serenidade. A presidente e o marido mostraram-se afáveis e calorosos, com naturalidade, cumprimentando ou retribuindo, porta a porta. A cada cumprimento recebido juntava-se uma sensação de reconhecimento ou de gratidão. Como se todos pertencessem a uma comunidade contagiantemente unida a uma só voz e a um só sentimento. Nem uma única “má cara”, um recolher apressado, um comentário reprovador, uma observação impertinente. Percorremos as principais ruas da povoação. Os arruamentos, os arranjos, os melhoramentos, as obras de raiz, o embelezamento de espaços públicos, agradeciam também, na solenidade concordante da noite.
Esta mulher, presidente de Junta, foge da vaidade porque tem o coração à esquerda, faz o que tem de ser feito em nome de valores e princípios que são tão simples afinal: dedicar-se a proporcionar uma vida um pouco melhor aos que mais precisam e lhe confiaram essa responsabilidade, e obter o prémio de consegui-lo, apenas. Ajudar, colaborar, empreender, multiplicar em valor social as contribuições que solicita, mobilizar-se com afinco e determinação em prol dos que estão limitados pela escassez dos recursos.
Esta mulher pode ter a cabeça à direita, é possível, admito-o. E daí? Também não se envaidece disso. E isso não belisca ou compromete o seu coração pungente e incansável e generoso, à esquerda. Generoso, era o adjectivo que me faltava, e o que melhor serve para o que ela é.
Esta mulher não é vaidosa do que é. Mas eu envaideço-me de ser seu amigo, Isabel.
Ah, e muito obrigado, Manel e Isabel.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima