A dor do PEC!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Não gosto do PEC. Porque ninguém pode gostar do PEC. Deste ou de outro PEC qualquer. Mas este PEC é como uma vacina: vai doer, mas tem mesmo de ser!
Não sendo especialista na matéria, até me parece que o PEC é demasiado suave: até podemos conseguir cumprir os 3%, mas daqui a muito poucos anos vai seguir-se um novo, ainda mais agressivo, da mesma forma que ao PEC de Ferreira Leite se seguiu o de Teixeira Santos, que obrigou Sócrates a parar de dizer dislates e enfrentar de frente o descalabro das nossas contas públicas. Da mesma forma que o Teixeira dos Santos obrigou o PS a votar a favor deste plano, conseguindo o quase milagre de obrigar um partido tantas vezes irresponsável na economia a fazer o que era preciso. Embora seja preciso mais! É premente falar verdade aos portugueses, explicar que Portugal é um país pobre, com uma economia débil, demasiado exposto ao exterior e com uma grave problema denominado de portugueses.
Podemos todos concordar que a União Europeia devia esticar o prazo para consolidar as contas: e até admito que seria importante lutar por isso! Mas sendo a UE intransigente, não temos outro remédio que amuar e cumprir: porque mesmo eu que sempre fui eurocéptico, não estou disponível para ponderar uma saída da UE ou abandonar o Euro. E quem tem memória, sabe que há um Portugal antes e depois da CEE e, mesmo com todas as nossas carências, ninguém de bom senso quer regressar a 84. Mesmo aqueles que o defendem implicitamente, não desconhecem a estupidez da premissa, mas desesperados tudo fazem para conseguir agarrar o eleitorado dos descontentes!
Com a vitória de Pedro Passos Coelho finalmente volta a existir PSD; tenho dúvidas se o melhor PSD, mas já é positivo perceber que há uma alternativa, um caminho diferente para a governação. O que irá permitir discutir política nos próximos meses. Não a politiquice de saber discutir publicamente se há liberdade de expressão – quando vão perceber o quão ridículo é o tema –, mas o papel do Estado na economia, a manutenção do Estado social e a reforma da organização política e administrativa. No caso do PS, esta discussão terá de ser feita primeiro em casa, porque quando se lê Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso, Alegre, Soares, Cravinho entre outros nomes importantes do “velho” PS, percebemos que não é possível um partido tão à esquerda sustentar um Governo que está obrigado a governar ao centro.
A mesma reflexão interna terá de fazer o PSD: porque passaram por um período eleitoral sem discutir política séria, preocupados com egos e umbigos, escolhendo – com uma maioria que impressiona – para líder o mais bonito dos candidatos, sem que se perceba que projecto tem para o partido e para o país. E quem quer construir uma alternativa, perante um documento com a importância do PEC, não pode limitar-se a dizer que é contra porque sim, sem se dar ao trabalho de apresentar um documento alternativo! Porque nesse caso teria de fazer opções e optar custa votos e aliena pessoas!
Temo que nos próximos meses e anos tudo fique igual: que se continue a dizer aos portugueses que podem continuar a reformar-se cedo e manter todos os benefícios actuais; que se mantenha a convicção que se eu não trabalhar o Estado vai arranjar-me casa e pagar um ordenado mensal de apoio à preguiça; que a Justiça se mantenha cega para os crimes económicos e continue a ser possível pagar mordomias à vagabundagem das empresas públicas e municipais; que as leis penais continuem suaves para os criminosos e que julgamentos que se podiam fazer em 48 horas se arrastem meses; que não exista verdadeira iniciativa económica privada e que todos os grupos económicos vivam da teta e dos favores do Estado.
Portugal precisa urgentemente de credibilidade! Não de credibilidade nas falíveis agências de rating, mas de líderes fortes que inspirem os portugueses e os façam acreditar que é possível inverter um cenário que está negro, por mais que alguns se esforcem para pintar arco-íris.
Mas não tenho ilusões: as coisas vão mudar e vai ficar tudo exactamente na mesma, porque faz parte da portugalidade descobrir vestígios de Sol em dias de tempestade!

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