A crise

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

As crises podem ser os melhores momentos na vida de um ser humano. Porque é nos momentos de dor e de dúvida, nos momentos em que a vida nos trai, que emergem as melhores características de cada um de nós, aquilo que de mais pura e belo temos para nos orgulhar. Ou o contrário: porque é também nos momentos duros que conhecemos a podridão do ser que se chama humano! Pessoalmente sou apaixonado por crises: encanta-me mergulhar na dor, para procurar e reencontrar-me!
O mesmo acontece com os países: as crises, especialmente as graves como a actual, podem ser momentos únicos para nos redescobrimos enquanto nação. Porque é nestes momentos difíceis que a realidade nos obriga a ver a porcaria que nos rodeia, a perceber que é impossível Portugal continuar este patético percurso onde se produz cada vez menos e se exige cada vez mais ao Estado.
A situação a que deixámos chegar Portugal não é uma questão de Esquerda ou de Direita! Até porque se olharmos o mundo, a Direita deixou de existir e a Esquerda existe em ditaduras de fome e miséria, num mundo cada vez mais neutral e cinzento, onde as ideologias se fundem, sobrando os extremistas, que à esquerda e à direita berram, perante a sábia surdez dos mais esclarecidos!
A grande questão política e social do momento é distinguir os honestos dos desonestos, as pessoas que insistem em terem princípios e honra, do bando de pêgas que sugam o esforço do nosso trabalho: e da mesma forma que encontramos gente boa e honesta em todos os partidos, em todos sem excepção encontramos uma vara de gente gananciosa, sempre afoita para se servir a si próprio! Porque um vigarista é um vigarista, roube pouco ou muito dinheiro!
Escrevi que Sócrates foi um excelente primeiro-ministro durante dois anos! Algo que mantenho em absoluto, com a mesma convicção de que fui grande crítico do remanesce, quando o PM se começou a preocupar mais com as sondagens do que com o país. Mas, infelizmente, os nossos problemas são bem maiores que um mau PM e não se resolvem apenas com eleições.
É preciso a reunião de todas as pessoas de boa vontade, um pacto contra a hipocrisia, contra a mentira e contra o assalto ao erário público, um compromisso de honra de denúncia do compadrio, uma política de verdade e lealdade, um concurso de boas vontades para redefinir Portugal e criar um projecto conjunto, uma nova ideia de Portugal.
Um Portugal de agro-indústria excepcional, um Portugal de turismo, um Portugal que tenha a coragem de deixar de estar na periferia da Europa para se assumir como o principal porto do velho mundo, um congregador da América, África e Europa.
Ser pobre e viver da generosidade alheia não é necessariamente o nosso fado, não faz parte da idiossincrasia de ser português. Se tivermos a coragem de voltar a ser ambiciosos, se usarmos a história para projectar o futuro, Portugal ainda vai muito a tempo de ter futuro! É verdade que à nossa frente só temos dificuldades, mas estes é são momentos para reconstruir a esperança e não desistir! Pelos seus filhos! Pelos filhos que a vida não me deu!

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