Num assomo poético cru e sobranceiro escrevi um dia, ainda a idade me era leve, que a morte é um bocado de fim com terra por cima. Pois não é. Aqueles sete palmos de terra e as tábuas do caixão não são, sinto-o agora, uma pedra que se ponha em cimo do assunto da partida daqueles que foram nossa parte corpórea e emocional durante anos a fio.
O conceito de morte, e da dor que a ela está associada, tem dimensões diferentes consoante o apego que tínhamos à pessoa. Ou damos os pêsames e fazemos uso de um raciocínio que exprime a lei da vida e a renovação da espécie, ou ficamos quebrados a meio, ali pelo picotado do coração, e sentimos que nunca mais vamos recuperar e queremos morrer logo ali também.
A morte pode vir de repente, num telefonema, numa conversa de rua, numa mensagem. Fulano morreu. Mas ainda ontem estive com ele. Vê lá o que é a vida. Não valemos nada. E a família destroçada, esmagada, o luto a meter-se-lhe nos ossos de repente. Incapazes de perceber, incapazes de aceitar, pondo em causa Deus e o destino, incapazes de falar com a funerária, incapazes sequer de achar que haverá amanhã.
A morte pode vir de mansinho. Como uma nuvem ainda lá ao fundo que cresce e se acinzenta e nos vai comendo o azul do sorriso. Fazem-se umas análises e uns exames, tomam-se uns remédios, não há-de ser nada, a ciência está sempre a evoluir. Mas a doença instala-se, a pessoa muda. E depois a nuvem cobre e rasga o sol da família, da casa, do quintal.
O luto é um processo individual, é uma resolução interior, sem tempo definido, sem cor de roupa. Não há fórmula religiosa nem científica que o sustente. É apenas um caminho que temos de percorrer, às vezes durante uma vida inteira.
Num corpo sem vida, a vida toda desse corpo deverá subsistir na nossa lembrança. Quando o corpo desaparece para sempre e acaba o funeral, por maior que este tenha sido, são aqueles que ficam e cruzam por último a porta do cemitério que verdadeiramente contam.

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