Em entrevista ao “CA”, o presidente do conselho de administração da Empresa Municipal de Água e Saneamento (EMAS) de Beja, Rui Marreiros, apresenta balanço dos 20 anos de trabalho da empresa responsável pela exploração, conservação e manutenção do sistema de água e saneamento do concelho, apontando os grandes desafios do futuro.
A EMAS de Beja assinala 20 anos em 2023. Qual a mais-valia de ser uma empresa municipal a responsável pela exploração, conservação e manutenção do sistema de água e saneamento do concelho?
A experiência e o grande conhecimento da área de atividade, o que permite uma evolução em termos de eficiência a nível da gestão e operação. A proximidade e satisfação das necessidades dos nossos clientes, a sustentabilidade da organização e a sustentabilidade ambiental são pilares estratégicos de atuação da EMAS de Beja, que assumimos no exercício das nossas atividades. No contexto atual, ter uma empresa municipal dedicada a um determinado setor criar um nível de especialização e uma capacidade de intervenção que tem diferenciado Beja positivamente no setor da água. Os indicadores de desempenho, quer operacionais quer financeiros, estão claramente acima de qualquer outra entidade gestora da região que pratique a administração direta do setor da água.
Qual a grande marca da EMAS de Beja nestas duas décadas?
A EMAS é uma referência regional e até nacional e define-se hoje como uma empresa socialmente responsável, que valoriza o meio ambiente, os seus colaboradores e os seus clientes. Consciente do impacto que representa para a região, a EMAS tem vindo a assumir um modo de atuação de proximidade num quadro de sustentabilidade económica, social e ambiental, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e para o desenvolvimento socioeconómico da região. A EMAS é uma entidade gestora de serviços de água líder na região que incentiva outras para os processos de mudança e inovação que são necessários encetar. A empresa é uma referência no serviço público municipal por incorporar também, como missão, a transferência de conhecimento e saber, contribuindo para uma melhor utilização dos recursos naturais. É hoje fundamental a adoção de medidas destinadas à defesa dos recursos ambientais, onde os recursos hídricos não são exceção. A água, não só é um elemento vital à vida, como também é um recurso impulsionador para o desenvolvimento. Neste sentido, educar as futuras gerações para as problemáticas ambientais, onde se insere o uso eficiente da água, assume-se como uma prioridade, sendo que a educação é primordial para mudar as mentalidades e as atitudes da sociedade. Com efeito, os 100 anos de história a contribuir para o desenvolvimento da região, assumem-se por si só, como um contributo valioso para a sociedade, assente num elevado grau de responsabilidade social e ambiental.
“A proximidade e satisfação das necessidades dos nossos clientes, a sustentabilidade da organização e a sustentabilidade ambiental são pilares estratégicos de atuação da EMAS de Beja.”
Como está atualmente a situação financeira da empresa?
É uma situação financeira que tende para a robustez, a recuperar de uma fase difícil devido à [pandemia da] Covid-19, onde se acentuaram as dificuldades de cobrança. Também será necessário diluir nestes dois anos um aumento de custos decorrentes dos tarifários da Águas Públicas do Alentejo (AgdA), que sofreram os ajustes induzidos pelos enormes investimentos realizados em Beja. Para além disso, o aumento de custos generalizados com as matérias-primas e serviços, resultantes do período de guerra, são igualmente um desafio a ter em conta. De qualquer forma, a estabilização dos tarifários, com pequenos ajustes à inflação e à variação fiscal, e a recuperação tendencial de custos são pilares da sustentabilidade financeira da empresa. A maior dificuldade está ao nível da capacidade de investimento, meta que estamos a contar poder ser ultrapassada com os investimentos previstos no [programa] Portugal 20230 para o setor da água.
A “ação” da EMAS vai além da exploração, conservação e manutenção do sistema de água e saneamento do concelho, seja por via do laboratório, seja através das iniciativas de educação ambiental (como o projeto “Heróis da Água”). Sente que esse tem sido uma aposta ganha?
O projeto “Heróis da Água”, é a nossa iniciativa de educação ambiental mais estruturada que se tem mantido em atividade até aos dias de hoje. A educação e a sensibilização ambiental fazem parte, desde 2012, do desígnio da EMAS de Beja. É uma aposta ganha, atendendo à recetividade da comunidade e pelos contributos que temos gerado, nomeadamente o aumento da literacia e consciência ambiental da população, tão importante neste período que se quer de “ação”, face aos impactos das alterações climáticas. Neste sentido, indiscutivelmente que a experiência adquirida e abrangência do projeto “Heróis da Água” é a base do sucesso dos projetos que temos vindo a desenvolver no que respeita à educação ambiental. O mesmo permitiu estreitar e fortalecer relações com a comunidade e os objetivos que, ano após ano, temos vindo a alcançar só comprovam que este é um caminho que temos que continuar a percorrer, que nos orgulha, e que é reconhecido, não só localmente mas também a nível nacional, como uma das referências do que melhor se faz nesta matéria. Mais recente lançámos o projeto “Centro de Ciência da Água”, que pretende aglutinar e potenciar a sustentabilidade e a inovação. Um projeto que nasce da necessidade de transformar hábitos e comportamentos face às questões ambientais, em especial na promoção do uso eficiente da água e na defesa dos recursos hídricos, assumindo a existência de um novo paradigma: a economia circular. Assim, torna-se fundamental ter um espaço moderno e multifacetado, que dê resposta a diferentes atividades de sensibilização ambiental, adaptáveis a todos os públicos. O Centro de Ciência da Água de Beja é uma valência que pretende proporcionar conhecimento, estimular a criatividade e incentivar a investigação, promover uma cidadania participativa e inclusiva, sendo um polo promotor de referência e contribuindo para o desenvolvimento sustentável da região e do setor da água nacional. Resultante deste desígnio surgiu também a tour “Liga do Ambiente”, que é dinamizada com recurso à unidade móvel do Centro de Ciência da Água, integrando um projeto que também merece um natural destaque, “Beja Sustentabilidade Global”, que pretende promover ações na área do Ambiente, por parte do Município de Beja, empresas municipais e intermunicipais, centros de investigação, num trabalho conjunto e de proximidade. Com estas iniciativas e modelos lúdico-pedagógicos, estamos seguramente a contribuir para a transformação de hábitos e comportamentos, no que concerne e em especial à defesa e valorização do meio ambiente, numa estratégia pública municipal em linha com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
“[EMAS de Beja tem] uma situação financeira que tende para a robustez, a recuperar de uma fase difícil devido à [pandemia da] Covid-19, onde se acentuaram as dificuldades de cobrança.”
Que novos desafios se colocam no horizonte da EMAS de Beja?
Do ponto de vista estratégico, a redução de perdas e a diminuição da água não faturada são um desfio em contínuo que não podemos abandonar, colocando a fasquia nos 20% com pequenas variações ao longo dos anos. Teremos para breve o anúncio oficial dos números bastante positivos relativamente ao ano anterior, que mostram a nossa estratégia de consolidação a médio prazo. Paralelamente, há a questão da qualidade da água, objetivo plenamente atingido e que obriga a renovar constantemente os desafios para manter a fasquia acima dos 98%.A expansão da rede e reforço da fiabilidade do abastecimento de água a Beja inclui uma empreitada já em curso, no âmbito da parceria com a AgdA, sendo que a sua conclusão e colocação ao serviço da cidade será um grande desfio para o próximo ano. Complementarmente serão desenvolvidas outras intervenções diretamente pelas EMAS de Beja, que pretendem complementar e maximizar os resultados. Como já referi anteriormente, a captação de fundos do Portugal 2030 – e os recursos a financiamento do Banco Europeu de Investimentos – serão cruciais nos próximos anos. Num contexto em que as questões ambientais, como são exemplo as alterações climáticas, escassez hídrica e seca, exigem uma profunda reflexão e, por conseguinte, a tomada de medidas urgentes, a EMAS Beja – dentro da sua responsabilidade empresarial, social e ambiental – assume um compromisso com as futuras gerações, contribuindo continuamente para a promoção da sustentabilidade dos recursos naturais, pelo que teremos de acompanhar e adaptarmo-nos a esta rápida evolução, o que, sem grande margem para dúvidas, implicará inovar e investir. Requerem-se, assim, novas soluções, investindo na ciência, na inovação na atualização tecnológica e na modernização da gestão, criando e partilhando novos conhecimentos. E é decisivo realizar trabalho em áreas como a eficiência energética, as alterações climáticas, a economia circular, a investigação e desenvolvimento, a certificação, ou o reforço do controlo interno relativamente ao cumprimento legal e da monitorização dos indicadores de desempenho, entre muitas outras. Continuaremos a atuar de acordo com este conceito estratégico que assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia, substituindo o conceito de fim-de-vida da economia linear por novos fluxos circulares, num processo integrado, cujo objetivo é valorizar um recurso bastante escasso na região do Alentejo, de elevado valor acrescentado e que tem sido alvo de grande preocupação pela necessidade do seu uso racional e eficiente: a água.












