A conversa corria mansa, ao sabor dos minúsculos copos de vinho e da sombra comprida da tarde.Como quase sempre acontece quando os anos já pesam mais do que os sonhos, acabamos por abrir o velho baú das memórias. E, sem ninguém o prever, o tema da conversa foi parar à Feira de Castro, essa espécie de romaria maior da pátria transtagana que há séculos marca o calendário emocional de múltiplas gerações.
Foi então que um dos convivas, abriu o coração e relatou uma história que nos deixou a todos em silêncio.
Disse-nos, com mágoa sentida, que só conseguiu ir à Feira de Castro quando já contava dez anos. Dez anos! Hoje parece pouco, mas para uma criança daquele tempo era uma eternidade.
Recordava-se de ficar à soleira da porta a ver passar os vizinhos e os filhos dos vizinhos. As camionetas de carreira enchiam-se de gente feliz para percorrer os escassos dez quilómetros que separavam a realidade do sonho. As crianças levavam os olhos cheios de futuro e regressavam à noite com brinquedos, guloseimas e histórias para contar.
Ele ficava para trás.
Via-os partir e chorava. Chorava de frustração, de impotência, daquela tristeza funda que só as crianças conhecem porque ainda não aprenderam a disfarçar as feridas. E isso tê-lo-á marcado até aos dias de hoje.
Enquanto o ouvia, dei por mim a pensar que, afinal, só fui à Feira de Castro muito mais tarde do que ele. Tinha já trinta e seis anos quando lá pus os pés pela primeira vez.
Mas a diferença não estava na idade.
Ao contrário do meu amigo, eu nem sequer ousava sonhar. Parecia (ou seria!) uma daquelas coisas vedada a determinada casta.
Naquele tempo, pelo menos na família onde cresci, as crianças não eram vistas como pessoas com desejos ou expectativas. Eram uma espécie de apêndice da casa, seres que cresciam sozinhos entre ordens, tarefas e silêncios. Os adultos não perguntavam o que queríamos. Nem sequer lhes ocorria fazê-lo.
Por isso, quando chegava a Feira de Castro, eu não sofria por não ir. Sofria porque sabia que não valia a pena desejar.
Mais tarde, a vida levou-me para longe. A cidade grande encarregou-se de apagar muitas paisagens da infância e a feira foi ficando arrumada num canto esquecido da memória.
Até que um dia, na quarta classe do calendário escolar, a reencontrei.
Folheava o livro de leitura quando deparei com um texto intitulado simplesmente: “A Feira de Castro”.
Foi a minha entrada secreta naquele mundo.
Visitei–a vezes sem conta através das páginas do livro. Conhecia-lhe os parágrafos, as frases, os sujeitos e os predicados. Distinguia cheiros e sabores e até mesmo alguns personagens ganhavam forma na minha imaginação. Sabia-lhe as falas de cor, como quem aprende o caminho para uma terra onde nunca esteve.
O destino, que às vezes gosta destas ironias, decidiu recompensar-me. Na prova oral do exame dessa mesma quarta classe foi precisamente esse texto que me calhou em sorte.
— Abra o livro de leitura na página 65 —
Ordenou o professor Beja que presidia ao exame.
Li-o como quem regressa a casa.
Interpretei-o como quem conta uma história sua.
E naquele dia a Feira de Castro, que nunca me tinha dado um brinquedo, presenteou-me com um: Muito Bom.
Ainda hoje me lembro das crianças que regressavam da feira com carrinhos de lata ou os famosos e tilintantes bonecos ciclistas. Eram os objetos de desejo de toda uma geração. Eu olhava para eles como quem olha para uma estrela distante: bonita, mas inalcançável.
Curiosamente, lembro-me perfeitamente das sovas que levei por “dá cá aquela palha”. No entanto, sou incapaz de convocar à memória, um único gesto de ternura maternal.
A memória tem destas crueldades.
E, no entanto, quando penso na feira, não é a amargura que me visita primeiro.
É uma vagem de alfarroba.
Todos os anos, sem falhar, o meu pai trazia-me uma da Feira de Castro. Era o meu presente. O único.
Chamavam-lhe o chocolate dos pobres. Talvez fosse. Mas para mim valia mais do que muitas riquezas.
Guardava-a como um tesouro. Partia-a aos bocadinhos e fazia-a durar dias. Cada pedaço era uma pequena festa, uma espécie de feira portátil que eu podia levar comigo.
Hoje percebo que aquela simples vagem continha muito mais do que alfarroba.
Trazia o cheiro da feira que eu não conhecia. O rumor da multidão que nunca tinha ouvido. Os brinquedos que nunca tive. Os sonhos que nunca me permiti sonhar.
E talvez por isso, passados tantos anos, quando a memória abre as suas portas enferrujadas, a Feira de Castro continua a chegar-me ao pensamento sob a forma de uma humilde vagem de alfarroba. Escura e rugosa. Mas doce como só a infância consegue ser, mesmo quando foi paupérrima em afetos.

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