Uma viagem à Índia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Tive a oportunidade de visitar durante 15 dias esse país enorme que é a Índia. Banhado pelo Índico aí aportaram no século XVI portugueses ilustres, como Mouzinho de Albuquerque e S. Francisco Xavier. Um país que, poucos saberão, é já hoje o país mais populoso do mundo, desde que a China limitou a natalidade a um filho por casal.
País de contrastes que magoam. Pobreza extrema para milhões e riqueza extrema para alguns. A chamada maior democracia do mundo não o é de facto. Tem cidades mais povoadas que Portugal, como Nova Dheli e Mumbai (Bombaim), tem monumentos enormes e lindos, tem os palácios sumptuosos dos marajás, tem as quarta e quinta maiores fortunas do mundo, mas tem milhões de crianças que nascem na pobreza, com uma taxa de mortalidade infantil de 7.5%, sem casa e sem futuro. Tem milhões de velhos ou pessoas envelhecidas deitados nas bermas das ruas a pedir esmola ou à espera de nada. E tem milhões de trabalhadores que todas as manhãs, numa turba ululante, se dirigem para o trabalho de bicicleta, de mota, riquexó ou em autocarros apinhados, num tráfego sem regras, onde os mais desenrascados passam primeiro e tudo vai fluindo.
Na Índia como noutros países emerge uma classe de pessoas que vivem do turismo e das gorjetas dos turistas. Tudo serve para ganhar dinheiro, desde garotas ainda crianças com um bébé ao colo e um biberão horrorosamente sujo que mendigam à saída dos autocarros; ao empregado que nos espera com uma folha de papel nos quartos de banho. E aos milhares de “maleteiros”, que nos aeroportos, junto aos autocarros e nos hotéis nos pegam nas malas a troco dalgumas “rupias”.
O rio Ganges, na cidade de Varanasi, é uma das visitas obrigatórias do roteiro turístico da Índia. É um dos locais onde são incinerados os cadáveres hindus, com excepção das crianças e grávidas, que quando morrem são lançadas ao rio, porque na Índia não há cemitérios. Em dois locais da margem do rio vêem-se várias fogueiras de toros de madeira, onde os familiares lançam os cadáveres depois de aspergidos com as águas do rio sagrado. Em frente e a poucos metros, no meio do rio, vários barcos a remos com turistas observam o “espectáculo” da morte e do fogo e da dor dos homens das famílias, já que as mulheres não participam nas cerimónias. Um dos barcos a meu lado transportava um único turista, obeso e aloirado, e aos remos ia um miúdo que não teria mais de 12 anos. Exausto, vi-o fazer uma pausa, inclinando-se para o rio, onde passou água pela cara e bebeu um gole da “água sagrada do Ganges”. Recuperadas as forças, continuou a remar em esforço.
Fomos de “riquexó” do meio da cidade de Varanasi para o rio Ganges. O condutor era um rapaz franzino, que nos momentos de maior dificuldade empregava o peso todo sobre os pedais para progredir num trânsito caótico, onde todos apitam, todos passam e todos se afastam, numa anarquia total, mas organizada, onde não há semáforos nem regras de trânsito. No caminho final que nos levava ao rio, uma multidão de pedintes e de pobreza, vindos de vários partes da Índia, muitos para morrer na Cidade Santa e incinerados no Ganges, alojados em casa cedidas para o efeito pelo Estado. Uma experiência única que não é descritível, mas que nos faz perceber a Índia, o seu misticismo, a religiosidade das suas gentes.
De resto, na Índia, andámos de cidade para cidade, de avião, de comboio, e também de autocarro por autênticos caminhos de cabras, já que as auto-pistas são raras. Melhor dizendo, por autênticos caminhos de “vacas sagradas”, já que estas estão por todo o lado, mais ignoradas que veneradas, de que os indianos aproveitam apenas o leite. Quando morrem são enterradas no campo. Nas grandes cidades, como Nova Delhi e Mumbai, as vacas começam a ser confinadas a espaços próprios. No resto da Índia, magras e ossudas, continuam a passear-se à vontade e são um pouco a imagem deste país. Enorme na população, majestoso nos seus monumentos, socialmente triste, pobre e desigual.
Os três últimos dias foram passados em Goa, onde ainda se respira a cultura portuguesa e onde sentimos algum orgulho pela nossa “colonização”, elogiada pelo guia turístico, que realçou a implementação económica e comercial feita pelos portugueses, que ainda hoje marca a diferença de Goa para o resto da Índia.
Na Índia, o caminho a percorrer é enorme. Tão difícil como o caminho do miúdo de 12 anos que no rio Ganges transportava o turista ocidental, obeso. Dificuldade que ultrapassou, molhando a cara e bebendo água do “rio sagrado”. O povo indiano sobrevive diariamente às suas dificuldades, apoiado numa religiosidade em que entram vários deuses. Foram capazes de construir monumentos cada qual o mais belo, estando entre eles uma das sete maravilhas do mundo. O Taj Mahal, construído no século XVIII, é de facto um monumento muito belo, mas igual a tantos outros existentes neste país, que surpreende na sua grandiosidade, na sua densidade populacional, na pobreza extrema em que vivem os seus idosos e as crianças, nos dogmas da sua religião e dos seus deuses.
Ao apanhar o avião em Mumbai de regresso a Portugal, a velha e doentia sensação que na Índia como em Portugal, por todo o mundo, a desigual distribuição da riqueza é, afinal, quem mais ordena.

<b>P.S.: </b>Regressado a Portugal, uma notícia boa. O PSD tal como o país, libertou-se da d.ª Manuela e do seu medíocre herdeiro, o sr. Paulo Rangel, autor de uma épica intervenção no Parlamento Europeu contra a falta de liberdade de imprensa em Portugal. Este figurão, que agrega no PSD um grupo de meninos da mesma valia que os “santanistas”, deve ter percebido finalmente que o seu papel nas Europeias, foi um acidente de percurso, cabendo agora a Pedro Passos Coelho recuperar para o seu partido uma oposição digna, que se traduza em alternativas sérias de governação, deixando de vez a arruaça pessoal contra o primeiro-ministro e seus familiares. Vamos ver.

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