um abraço!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Ana Ademar

actriz

É inegável que as Palavras Andarilhas e o Festival Internacional de Banda Desenhada são os maiores acontecimentos culturais de Beja. O nome da cidade aparece na imprensa nacional e estrangeira, trazem turistas, devolvem alguma pulsação à cidade, a criatividade e a arte circulam pelas ruas, praças e esquinas, espalhando as sementes que as gerações seguintes colherão (que palavra esquisita).
Estas duas iniciativas são da responsabilidade da Câmara Municipal de Beja, através da Biblioteca Municipal e da Casa da Cultura, respectivamente. São por isso programados, produzidos, pensados e levados a cabo por funcionários públicos. Ora, nestes casos, o funcionalismo público nada tem que ver com as ideias de laxismo, incompetência ou incúria com que tem sido, desde há anos, rotulado. Pelo contrário. Se quisermos definir o comportamento destes funcionários públicos será com palavras como: dedicação, esforço, empenho. Há que louvar e agradecer o esforço destes funcionários públicos da cultura, que honram o título que carregam e são realmente funcionários do público. A verdade é que, é também graças a eles que o pouco de cultura existente nesta planície escaldante ainda não desapareceu. E tudo isto se resume a uma expressão: “amor à camisola” – expressão esta que tem muito que se lhe diga, porque a partir daqui tudo é válido; é por amor à causa. E se no amor e na guerra tudo vale, então pisamos um terreno muito pantanoso.
É que por amor, uma pessoa é capaz de tudo.
Nada tenho contra o amor à camisola, pelo contrário, acho que sem ele – o amor – pouco ou nada se faz. O amor é bonito, romântico, mas também ingénuo e o problema é o aproveitamento que dele se pode fazer quando é óbvio que o nosso amor nos impedirá de deixar morrer as coisas, os projectos, as ideias… porque as amamos.
Hesito na leitura possível do que aconteceu a semana passada no Pax Julia. Por iniciativa da Biblioteca, foi organizado o espectáculo de angariação de fundos “Um Abraço às Andarilhas”. Porque mesmo depois de se tornar um acontecimento bienal, o orçamento continuou a minguar muito para além do razoável e era necessário compensar as machadadas.
Leituras possíveis:
1. A Câmara de Beja pede aos munícipes que financiem duas vezes um dos dois grandes acontecimentos culturais da cidade: quando pagam os impostos e quando o evento está já aí e é preciso liquidez…
2. Os funcionários da Biblioteca Municipal deram um par de chapadas de luva branca na cara de quem lhes tenta reduzir o projecto: não só conseguem artistas para uma noite inteira de espectáculo, como enchem o teatro com algumas das pessoas que não querem deixar morrer as Andarilhas.
Se no primeiro caso me parece uma perversão brutal da lógica das coisas, o que não me surpreende, mas não deixa de chocar, no segundo caso preocupa-me que as caras em que as chapadas deviam assentar com força se recusem a recebê-las por fugirem ao contacto. São chapadas perdidas no espaço sideral, metafísicas. Por outro lado, a pergunta que faço é: se agora, com tão pouco, as Andarilhas vão acontecer (devido ao “amor à camisola”), o que haverá daqui a dois anos? Podemos estar perante um caso semelhante ao do burro do cigano, que quando finalmente se começava a habituar a não comer, morreu.
Ao mesmo tempo que associações culturais e desportivas não recebem um tostão de apoio em 2012, o executivo da Câmara Municipal de Beja declara a Tauromaquia Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. Se não fosse trágico, dava vontade de rir.

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