Triste espectáculo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

No programa de História do sétimo ano de escolaridade, os alunos estudam a democracia em Atenas, no século V AC. Democracia imperfeita é certo (assente numa sociedade esclavagista e com as mulheres com um papel secundário – que Chico Buarque tão bem retratou na canção “Mulheres de Atenas”), mas que leva os jovens estudantes a descobrir, não só o seu significado (poder do povo), mas também o da palavra política – governo da polis/cidade estado.
E é na transposição desses conceitos para a história contemporânea do nosso país que, invariavelmente, este último conceito surge associado, nas palavras dos alunos, a um conjunto de práticas nada abonatórias para os políticos – aqueles que se dedicam a essa tão nobre quanto desacreditada função. E vêm à baila frases como “são todos iguais”, “só querem é encher-se”, “criam tachos para familiares e amigos”, etc.
Não é fácil desmontar tais preconceitos, reproduzidos pela opinião pública, alimentados por uma certa comunicação social e, pior do que isso, fomentada por práticas de políticos que, escudados pelo exercício de cargos públicos, dão esses maus exemplos que, injustamente, acabam por atingir aqueles que têm uma conduta séria e irrepreensível, enquanto eleitos pelo povo que representam.
Associada a essas práticas menos sérias (e até, em alguns casos, ilegais), existe ainda a ideia de uma certa impunidade, quer pela inexistência de uma débil opinião pública, que se mostra incapaz de uma censura que leve ao afastamento de quem as executa, quer pela sensação de que a própria justiça se mostra impotente para condenar as ilegalidades cometidas.
É claro que o surgimento de casos e nomes na comunicação social não significa, necessariamente, crime e castigo, mas não podemos ignorar que situações como BPN, Freeport, submarinos, Face Oculta, associados a políticos como Dias Loureiro, Sócrates, Duarte Lima, Armando Vara, Isaltino Morais, entre outros, deixam no ar a suspeita de uma certa promiscuidade entre negócios e política, alicerçada no facto de alguns desses nomes, sendo originários de famílias modestas, em poucos anos atingiram patamares de riqueza incompatíveis com os vencimentos auferidos nos cargos políticos exercidos.
Perante essas situações, a resposta dos órgãos judiciais tem revelado uma incapacidade confrangedora, o que leva as pessoas a concluir que há dois pesos e duas medidas quando se trata de aplicar a justiça. Pior do que isso, fica a sensação de que os que exercem esses órgãos, nomeadamente os mais elevados – Procurador Geral da República e presidente do Supremo Tribunal de Justiça – tomaram partido, deixando de lado a imparcialidade exigida. Já para não falar das famosas prescrições, que acabam por ilibar “na secretaria” aqueles que já tinham sido condenados por crimes comprovados.
Não bastavam estas desconfianças, eis que surgem também notícias sobre ligações perigosas entre os serviços secretos (que deveriam estar acima de quaisquer suspeitas), política, negócios e sociedades secretas, que não abonam nada a favor da credibilidade dessas entidades.
Perante este rosário de situações nada democráticas, casos como o das habilitações académicas aparentemente forjadas – ontem Sócrates, hoje Relvas, amanhã logo se verá – surgem quase como “normais”, justificadas por uma certa ideia muito divulgada de que os “espertos” são os que triunfam, elevando ao topo a teoria do mérito do “chico-espertismo”, tão do agrado de certas mentes ultra-liberais.
Enquanto isso, alguns persistem em atirar-nos areia para os olhos, pensando que engoliremos sem reagir todas as suas mistificações. Só assim se percebem as afirmações de Carlos Zorrinho ao elogiar o “sentido de responsabilidade” do deputado Ricardo Rodrigues, que se demitiu da direcção do grupo parlamentar do PS na sequência da condenação pelo furto dos gravadores dos jornalistas da revista “Sábado”.
Como se esse “sentido de responsabilidade” não fosse inerente a quem é eleito, quer para deputado, para presidente de junta de freguesia ou para Presidente da República e fosse preciso esperar por uma decisão judicial para se tomar uma posição que, perante tão degradante episódio, há muito deveria ter sido tomada.
São todos estes (maus) exemplos que levam os jovens alunos de 12/13 anos a achar a política como um espectáculo, abrilhantado em períodos eleitorais por festas, com a participação especial de emigrantes africanos e orientais, para encher plateias e com a participação de actores cuja principal função é debitar promessas, por vezes com novidades como a referência a “pilares”, não de betão mas de esferovite, que caem mal o vento sopra um pouco mais forte.
Felizmente que a política não é apenas feita deste (triste) espectáculo e que muitos homens e mulheres continuam a servir a democracia recuperada com o 25 de Abril, em defesa dos seus ideais e dos seus princípios, independentemente das cores partidárias que vestem, em nome do povo que os elegeu.
Afinal, não foi isso que nos ensinou Péricles há 2.500 anos?

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