Quo Vadis, Portugal?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Alexandre reformara-se há pouco mais de um ano. Funcionário autárquico durante uma vida, levara os últimos anos de serviço no parque de materiais do município, dando apoio à oficina das viaturas que por lá passavam. Agora sobrevivia com os cerca de €600,00 mensais que lhe foram atribuídos pela Caixa Geral de Aposentações em função da sua carreira contributiva.
Ainda com alguma dinâmica, Alexandre inscrevera-se nas finanças como prestador de serviços. Coisa pouca. Em rigor, limitava-se a ajudar algumas horas por dia na oficina do vizinho. O que aprendera na oficina da Câmara, revelava-se agora útil e rendia-lhe mais uns precisos €200,00 por mês.

Porém, o estado de saúde de Alexandre já apresentava aqui a acolá algumas fragilidades, próprias e naturais de quem já tem 65 anos de idade. Na semana passada, fortes dores na região lombar haviam-no levado por duas vezes às urgências do Centro de Saúde. Por cada consulta pagara10 euros. Antes, no ano passado, pela mesma maleita e em circunstâncias iguais, pagara 3,80 euros.
Mais: dos 3,80 euros que pagava antes, podia deduzir no IRS seguinte 30%. Agora, quando for entregar a próxima declaração, só beneficiará de 10% das despesas médicas suportadas. Feito o acerto fiscal, Alexandre concluirá que antes suportava 2,66 euros por uma consulta de urgência no Centro de Saúde e agora suporta 9,00 eros. O preço mais que triplicou em 2012. A culpa é da troika, dizem uns; é do governo, gritam outros; Alexandre sabe é que paga o triplo. Ele e muitos milhões de portugueses mais, sublinhe-se.
Ontem recebeu uma carta das Finanças. A sua casa, pequena mas relativamente nova, fora reavaliada ao abrigo da reavaliação geral de imóveis urbanos. Dirigiu-se às Finanças lá do concelho e explicaram-lhe o que significava aquela fórmula. Ficou a saber que no ano seguinte vai pagar quase o dobro de IMI.

Outra conta que tem feito mossa nas contas do Alexandre tem sido a fatura, nomeadamente, da luz e do gás. O IVA subiu de 6% para 23% e isso no final do ano corresponde a muito mais dinheiro do bolso para fora.
Alexandre também notou que uma série de pequenos cafés por onde costumava passar ao final da tarde para beber umas minis e conviver com os amigos, já tinham fechado e nos outros só se falava em fechar dentro de pouco tempo. A subida do IVA de 13% para 23% afastara clientes e fregueses. Estabelecimentos às moscas com as despesas inerentes ao funcionamento constantemente a subirem, não são sustentáveis.
Alguns antigos colegas da Câmara, com reformas melhores que a sua, também não recebiam os habituais subsídios de férias e de natal.
À noite em casa, Alexandre via desfilar, no Telejornal das 8, ministros e secretários de estado, dizendo que o caminho só pode ser este, que estamos a recuperar, que estamos quase a ser aceites nos “mercados”, que este esforço será depois largamente compensado.
Mas como? Num país em que o desemprego atinge a mais alta taxa de sempre sem qualquer esperança de reversão no horizonte? Funcionários públicos com cortes e mais cortes salariais, empresas privadas a fecharem portas todos os dias, aumento dos preços galopante, diminuição grande de direitos sociais das pessoas, aumento quase diário da carga fiscal, ora nos juros, ora nos rendimentos, ora no património, ora no consumo.
A troika obriga-nos, diz a direita neo-liberal no poder. “Não ao pacto de agressão”, dizem os partidos da extrema-esquerda na oposição!
No meio está a virtude. Na tolerância, na tranquilidade e na verdade.
Portugal não pode, nem deve, incumprir o acordo que assinou e que nos permitiu financiar-nos em 78 mil milhões de euros junto de vários credores. Temos de cumprir o acordo renegociando porém os prazos. Seria uma irresponsabilidade histórica não o fazer.
Mas também tem de se denunciar que esta crise serve que nem uma luva para a aplicação de uma cartilha ideológica do atual governo que vai matar o doente com a suposta cura. O conjunto de opções que atrás referi, de aumento do IVA em quase todos os produtos, aumento do IVA no setor da energia para taxas máximas, aumento do preço dos transportes, aumento brutal das taxas moderadoras, corte nos salários e muito mais, decorre exclusivamente da vontade política do atual governo e não está no memorando de entendimento com o qual nos comprometemos e que entendo devemos cumprir. Diz-se, e bem, que o anterior governo PS assinou o acordo por necessidade; O PSD e o CDS cumprem-no com grande convicção. E isso faz toda a diferença!

Pelo meio está o nosso Alexandre que só vê a sua própria vida e daqueles que o rodeiam andar para trás. Pelo meio estão milhões de “Alexandres”, que somos todos nós, e que vemos exatamente o mesmo mas para os quais o governo não tem solução a não ser “emigrem, se puderem”. Perante esta desilusão, esta tristeza, esta amargura, este beco sem saída a que Passos Coelho conduziu o país em apenas um ano, é caso para perguntar: “Para onde caminhas, Portugal? Quo Vadis?”

<i>Artigo escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.</i>

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