Pensar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Não se lembra de o pensamento ter nascido em si. Só sabe que é mais novo do que a sua carne, os cinco sentidos e o crescimento dos seus ossos. Terá acontecido como um nevoeiro que estava e de repente se levantou, um fogo em ala sem antes haver chama nenhuma, uma mão pequena a esfregar uma lamparina, um pássaro que apareceu já no ar batendo as asas.
Ele era pequeno e não pensava em nada. Só sentia coisas primitivamente boas. O colo. O leite. O calor. O doce. O riso. Mas depois, vinda da tradução que os olhos fazem do mundo, desse aparente nada, uma pomba negra invadiu-lhe a inocência e mandou-o achar coisas sobre a vida. Deu-lhe uma identidade, ensinou-o a ficar com a parte maior do chocolate, a querer mais, a estabelecer comparações, a fazer parte do topo das escalas de qualquer mérito.
O pensamento ligou-se a ele como se aparafusam as rodas de apoio a uma bicicleta. Ainda sem equilíbrio, com receio e vergonha de cair e dizer, de apresentar pequenos raciocínios, ainda e só na sua rua, ainda e só na sua casa. Apenas tentativas planas, opiniões insípidas, curvas largas, trajectos e juízos curtos e controlados. Pela cartilha da sua gente, aprendeu o feio e o belo, o mau e o bom, o errado e o certo. Ensinaram-lhe veredas, religião, clube, bandeiras, roupa, comidas. Ensinaram-lhe a fugir de estranhos, a fugir de tudo o que é estranho, a viver num rebanho, sabendo sempre quem é o pastor que o guarda e o cão que o vai buscar se ele desertar da normalidade.
Ganhou a arbitrariedade da razão e do julgamento, escolheu caminhos, tomou opções, resolveu encruzilhadas.
Mas houve um dia em que olhou para dentro de si e viu um buraco. Não sabia para que servia aquela coisa funda e negra que se abria de cada vez que pensava. E quanto mais pensava, quanto mais pedalava para lá da sua rua, quanto mais desafiava a gravidade e o medo, quanto mais descobria, às vezes subindo tanto, mordendo os lábios, chorando a dor de não conseguir chegar ao cimo, quanto mais se curvava sobre o guiador do tempo, maior e mais escuro ia ficando o buraco. Depois de muito olhar para o conta emoções, descobriu que esse cansaço, essa vertigem, era a memória a quebrar-lhe as pernas. Era a memória, essa bagagem de viajante, a pesar-lhe nos músculos das ideias.
Deu por si, equivocado no caminho, as mãos na cabeça, a bicicleta caída a seu lado, a corrente fora dos carretos da esperança.
(O pensamento é um pedalar contínuo, a memória é a marca que as rodas deixam. )
Os ossos já há muito que pararam de crescer, mas o pensamento não abrandou, pelo contrário, cresceu como uma imensa seara de inquietação sem foice que a corte.
Que bom seria poder ir dormir e desligar o pensamento como quem desliga um interruptor!

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