Ervas daninhas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Às vezes, sem que a gente o esteja esperando, acontecem coisas bonitas. Cortesias de um universo benfazejo que acordou bem-disposto e lá condescendeu nesse dia em agraciar-nos com qualquer coisa não demasiado banal. Ou talvez que nos esqueçamos com demasiada frequência que todas as pessoas, mesmo as que estão caladas, as feias, as gordas, as velhas e as coxas, têm elas também qualquer coisa de insuspeito a germinar dentro em silêncio. São ervas bravias que não têm época certa para desabrochar, é conforme lhes dá o sol e a chuva, é conforme as fustiga o vento e as não tolhe a fúria higiénica e estética que gosta de manter a plantação arrumada.
“A amizade é a melhor coisa que a gente leva desta vida. Um gajo, quando morre, não leva as casas.” Assim o disse o homem que já lá ia para o bêbado que acabava de entrar no autocarro. Deviam conhecer-se vagamente, talvez do tempo em que um não era velho e o outro não era bêbado, ou até que nem se conhecessem de lado nenhum, quando uma pessoa tem uma verdade dessas entre as mãos sempre gosta de partilhá-la com quem estiver mais à mão. O bêbado amanheceu todo num sorriso desdentado, e de entre a tortuosa orografia da sua boca bafejou para a aurora a primeira brisa adocicada de vinho tinto. Que sim senhora, concordava, a amizade é a melhor coisa que a gente leva desta vida. Deve ter agradado ao primeiro a ébria receptividade do dito, porque continuou de seguida, filósofo que o anonimato sepultará, “que eu cá costumo dizer que as pessoas só morrem definitivamente quando deixam de ser recordadas”. O bêbado anuiu efusivamente, verdade verdadinha, que só quando as pessoas deixam de ser recordadas é que morrem definitivamente. E tudo assim se passando com o universo a marimbar-se desavergonhadamente para a beleza de tudo aquilo. Nem uma orquestra triunfante a coroar numa apoteose sonora o acontecimento literário que acabava de ser proferido, nem uma súbita assembleia de intelectuais que patenteassem de imediato aquele inaudito ajuntamento de palavras, nem um concílio de filósofos que inaugurasse a partir dali uma nova escola de pensamento; nada. Só uma voz feminina e maquinal que anunciava competentemente a próxima paragem, mais o bulício e o marulhar que fazem as pessoas a existir, aqui e ali uma conversa sobre o tempo, a amizade é a melhor coisa que a gente leva desta vida entremeado com tem estado de chuva e parece que até ao fim-de-semana não dão melhoras, intolerável promiscuidade entre palavras de estratos sociais tão diferentes. Sei muito pouco sobre o que é que a gente leva desta vida, mas também me parece que a amizade pode bem ser uma delas. Um gajo, a ter de escolher, sempre há-de preferir a amizade às casas – até porque, em certa medida, os amigos são também eles uma outra espécie de casa.
De maneira que o bêbado sorria escancaradamente, enlevado pelas palavras do poeta, quando uma pessoa tem uma alegria com coisas assim tão fáceis quanta não terá com outras de maior complexidade. Ou talvez que a alegria do bêbado viesse precisamente das coisas muito simples, muito gratuitas; coisas ditas assim para o ar, despretensiosas, desengravatadas, a cheirar à vida de todos os dias. As ervas daninhas também cantam, basta que, não sem algum esforço, saibamos sintonizar-nos na sua frequência. As ervas daninhas são assim esquivas, intersticiais, improváveis; não crescem em vasos e por isso de nada serve ficarmos à espera que nasçam frondosas de dentro do recipiente que lhes destinámos. Nascem nos cantos, nos entremeios das sombras onde não vamos, têm alma de bicho livre que é só onde lhe convém. Não são de nascer onde a gente as quer ver, estão para aí amarelecendo dentro dos autocarros, estioladas em casas com pouca luz, velhos que falam, bêbados que escutam, o resto que ignora.
E depois, assim mesmo, sem se fazer um silêncio sepulcral para ouvir a frase que estava prestes a ser dita, sem que o motorista parasse o trânsito para coordenar uma efusiva ovação ao dizedor dela, sem mais reacção que a de ter tudo continuado normalmente, o velho levantou-se, suspirou, e, como quem remata indiferentemente a sucessão das suas intervenções, disse:
‘As estrelas estão sempre no céu e não se vêem todos os dias.’
Ora toma. Para te desenganares da ideia de que tens as palavras todas para ti, para não pensares que as coisas bonitas e profundas só vêm de ter estudado e conhecido autores consagrados; para não achares que sabes qual é o lugar certo das coisas. As coisas mais bonitas nascem do chão, não vêm do sol.
‘As estrelas estão sempre no céu e não se vêm todos os dias’. Se fosse outra pessoa a ter dito, poderíamos dizer que o autor procurou, por via de uma engenhosa manipulação da “estrela” enquanto metáfora da beleza e da luz cuja omnipresença nem sempre é detectada por olhos casuais, aludir ao carácter transitório e efémero da nossa capacidade de entendimento, pondo o sujeito poético em evidência o primado das trevas sobre a luz e o seu domínio absoluto sobre a vivência quotidiana do Homem. Como foi só o homem que ia no autocarro, o autor quis apenas dizer que as estrelas estão sempre no céu e não se vêem todos os dias. Baste-nos isso.

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