Os pobres estão cada vez mais pobres

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Nestes últimos dias do mês de Junho tenho lido e ouvido a opinião de muitos analistas a propósito da greve geral de 30 de Maio. De tudo o que se disse, ressalta, desde logo, uma questão que é central em todo este debate: os trabalhadores têm as mais fundamentadas razões para se manifestarem contra as politica deste governo do Partido Socialista.
O “sector trabalho”, aquele que é um dos elos fundamentais da cadeia económica de um país, encontra-se altamente desvalorizado. Aquilo que é reconhecido como um factor de equilíbrio e de justiça social é hoje tratado, por este Governo, como um sector a abater, ou, pelo menos, condicioná-lo quanto ao futuro.
A ideia é tornar os trabalhadores dóceis, como se isso fosse possível, e entregar ao capital tudo o que é rentável. Nem o desemprego, nem as condições difíceis, nem a precariedade, jamais esses factores todos potenciados fizeram com que os trabalhadores desistissem de lutar por aquilo que consideram justo, ou seja, a defesa da valorização de uma vida digna.
Mas para que não se diga que se fala apenas de qualidades, vamos aos factos:
– O desemprego atinge hoje o valor mais alto dos últimos anos, mais de 600.000 trabalhadores, metade dos quais são desempregados de longa duração e mais de 100.000 (cem mil) são jovens.
– O custo de vida aumenta e crescem as desigualdades e injustiças sociais. Aumentaram os preços dos bens e serviços essenciais, desde a electricidade ao pão, passando pelos transportes, pelas taxas moderadoras e culminando com os salários, que não crescem e são os mais baixos da União Europeia, e as reformas.
– Enquanto isso é só verdade para os trabalhadores, os lucros, os privilégios e as mordomias são cada vez maiores para os senhores do capital e para as suas empresas.
– Só no ano de 2006, os cinco principais bancos nacionais, em conjunto com a EDP, GALP e SONAE, arrecadaram chorudos lucros.
– Os administradores das empresas cotadas na bolsa tiveram aumentos 60 vezes superiores aos dos trabalhadores dessas empresas.
Os sacrifícios não são para todos. Em Portugal os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A par desta situação, já de si calamitosa, o país tem dois milhões de pobres, que são desempregados, reformados, pensionistas, idosos, mas também muitos trabalhadores, que apesar de trabalharem continuam pobres, ou cada vez mais pobres, pois os salários não chegam para acompanhar o custo de vida.
A par destas situações, a precariedade laboral é hoje uma praga social, que atinge cerca de um milhão de trabalhadores, reduzindo direitos e impondo a instabilidade laboral, condicionando o futuro destes, retirando-lhes perspectivas de vida.
Como se tudo isto não fosse suficientemente dramático, destroem-se os serviços públicos, para que estes possam ser entregues aos grandes grupos económicos e financeiros, em nome de uma pseudo-capacidade de intervenção, mas com manifesto prejuízo para as populações.
Escolas encerradas (1.400) e mais 900 já anunciadas, Maternidades, Urgências, Serviços de Atendimento Permanente encerradas ou em vias disso, tudo em nome da economia, ou seja do “sacrossanto” Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), aquele a quem altos dirigentes da União Europeia já lhe chamaram de “Programa Estúpido”.
Acrescente-se, ainda, que dentro deste contexto, o Governo abriu a discussão sobre a “Flexisegurança”, preparando o terreno para a liberalização dos despedimentos individuais, sem justa causa, e decisão arbitrária por parte do patronato sobre horários, vínculos, carreiras e remunerações. É, de facto, uma plêiade de situações que têm vindo a acentuar-se de dia para dia com este Governo do PS, com maioria absoluta, na Assembleia da República, que põe e dispõe a seu belo prazer, não querendo ouvir nada nem ninguém, ou, pelo menos, assim parecia.
Creio que depois da pressão dos trabalhadores, a situação se alterou um pouco, mas é necessário e fundamental a unidade dos trabalhadores, para quebrar de vez com a arrogância e prepotência deste Governo, pois não tenho dúvidas que os trabalhadores vão continuar a lutar pelos seus direitos. Quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta pelos seus direitos está derrotado à partida.

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