O jogo da vida

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Nunca é despropositado lembrar que só a escola não chega para educar os jovens. É preciso mais, muito mais. É necessário que a família não se esqueça e não se demita das suas funções e dos seus deveres, pois ela é, na sua definição e na sua prática, a base de sustentação de uma sociedade equilibrada e capaz.
Não serve de nada haver Formação Cívica ou Educação para a Cidadania nas escolas se o que se traz de casa não for um elemento facilitador do processo de aquisição de valores e regras de conduta, ou pior, se o que se traz de casa for um elemento impeditivo e totalmente contrário à aquisição desses valores.
No passado fim-de-semana assisti a um jogo de futebol do escalão de Escolas. Para quem não sabe, o escalão de Escolas integra miúdos de oito, nove e dez anos, gente pequena, gente em idade de aprender bons hábitos de convivência, de aceitação da diferença, de princípios de solidariedade, do respeito pelas regras e normas, digam elas respeito ao futebol ou à vida no seu todo. Os miúdos de oito, nove, dez anos aprendem, absorvem, fazem seus os hábitos dos adultos. Repetem-nos e utilizam-nos como instrumentos nas suas relações sociais. Para o bem e para o mal. Agora, mais tarde e sempre pela vida fora. Num campo de futebol, numa rua, num supermercado, ao volante de um carro, na política e no seio da própria família.
Quero acreditar que os pais, as mães e os adultos que presenciaram aquele jogo não têm noção, nem fazem a mais pequena ideia da contribuição negativa que deram para o processo de crescimento daquelas crianças. À medida que o jogo decorria, se o resultado, uma simples jogada ou uma insignificante decisão do árbitro não agradava, o espaço envolvente do terreno de jogo ia-se transformando num campo de batalha verbal. Algum público, adepto de uma ou outra equipa, constituído essencialmente por familiares, entrava em transe e usava aqueles pequenos jogadores como fantoches das suas próprias frustrações, exigindo fintas que eles próprios nunca souberam fazer, golos que eles nunca conseguiram marcar, feitos que jamais estiveram perto de realizar. Desvalorizaram entradas mais violentas, defenderam palavrões, bateram palmas ao egoísmo, abençoaram a vaidade.
E aqueles pequenos seres, ainda indefinidos nos seus feitios e nos seus comportamentos, com personalidades por construir, equipados de camisola e calções, foram armados soldados numa guerra entre pessoas inconscientes.
Quando o jogo acabou, cansados de gritaria e má-língua, os pais, as mães, os avós e os outros familiares refrearam as quezílias, acalmaram os nervos e até se despediram uns dos outros. Mas o apito final do árbitro já não irá apagar o que de mal aqueles adultos fizeram àquelas crianças.
Na segunda-feira há escola outra vez. Na sala de aula, sem apitos nem cartões que lhes valham, em jogos de noventa minutos cada parte, os professores que aturem e desmanchem o que a família lhes ensinou.

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