Os dias passados

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Quando na véspera de Natal se desenham na folha branca reflexões que vão conhecer o papel de jornal a poucas horas do ano novo é quase obrigatória procurar nas caixas da memória alguns factos que marcaram o ano do qual nos despedimos. Parto em dois esta retrospectiva, repartindo a análise entre a Região e o País.

<b>1. </b>O ano que agora finda foi um ano perdido para a cidade de Beja. Mais de meio mandato autárquico expirado e o balanço é extremamente negativo.
Nunca juntei a minha voz aos que cegam perante um alegado papão comunista; só um imbecil autismo permite escamotear que boa parte da justificação para a hegemonia vermelha na Câmara, não reside num bom trabalho! Durante anos, houve a capacidade de aumentar o nível de vida das populações, pelo que as sucessivas vitórias eram o merecido prémio para o trabalho realizado. Mas, nos últimos anos, um prémio que já não conseguiram honrar.
Não entro na demagogia de achar que é fácil o trabalho autárquico num interior cada vez mais esquecido; não ignoro que o presidente Francisco Santos encontrou uma edilidade descapitalizada, arruinada por uma péssima Polis, com quadros de funcionários desajustados! Mas a herança que reconheço ser pesada não pode ser causa de exculpação num partido que continua a olhar os cargos como pertença do partido, expulsando quem contraria a regra interna!
Confrontado o autarca com as suas promessas, resta uma casa mortuária e um amplo bando de promessas, projectos ainda no papel ou em estudo, uma insofismável incapacidade produzir obra, falta de imaginação e obras falhadas (as indescritíveis Colina do Carmo e Beja Digital).
Mas esboçado o balanço sobre a crónica de um mau mandato, deixamos a nossa convicção, em jeito de futurologia: tudo se conjuga para uma reeleição do actual presidente (ou, no caso que por vezes se sussurra como provável) de algum dos actuais vereadores em quem o partido deposita confiança! E que não chorem os críticos ou se indignem as oposições, porquanto, ao mau desempenho autárquica, juntamos um PSD perdido nas suas guerrilhas internas e um PS que parece desaparecido do combate, cujas escaramuças permitiram ao PCP conquistar na Câmara a maioria absoluta que o povo lhes negou nas urnas, incapazes de oferecer um projecto autárquico alternativo.

<b>2. </b>Admito que esta escolha possa causar alguma incredulidade, mas para personagens do ano escolho três meninas: Maddie, Esmeralda e Iara. Sobre o “caso Maddie” já tanto dislate foi escrito, que recuso-me a somar a minha voz a todos os outros disparates que infelizmente conheceram a letra imprensa de jornais, revistas e livros ou encheram de “não noticias” centenas de horas em televisão, exibindo o lado mais abutre dos media, que sequiosos do sangue das audiências. Mas é axiomático que foi o facto do ano: mostrámos ao mundo toda a genuína emoção de um povo, que chorou e rezou o triste fado de uma miúda inglesa alegadamente raptada, para três meses depois, arrastados pelas certezas incertas dos jornais, condenarmos os pais na praça pública, numa réplica dos recentes Portugal-Inglaterra, corolário de uma época de futebolização da justiça, onde as partes têm não apenas advogados, mas também claques.
Mas este foi ainda o ano das famílias que agora chamam de afecto! Esmeralda e Iara (nomes que as famílias de acolhimento decidiram atribuir às miúdas, esquecendo que as jovens já tinham nome!) animaram discussões de café, fazendo-nos discutir e tomar partido entre as famílias biológicas e as que chamam de afecto, sem cuidar de saber os pormenores dos processos judiciais, excepto as versões que as partes injectam na opinião pública através de uma cobarde imprensa.
Tenho profundo respeito e admiração pelas famílias de acolhimento! Não escondo as minhas falhas e imperfeições, pelo que assumo que não teria coragem para durante meses ou mesmo anos receberer em casa uma criança, criá-la e educá-la, com a certeza de um dia ter de a devolver aos pais ou a outros que os tribunais determinem. Pelo que faço a escolha consciente de não ter coragem para ser pai de acolhimento! Mas aceitar receber estas crianças, ciente das “regras do jogo” e depois recusar a sua entrega, impedir que os pais tenham contactos com elas, diabolizar os progenitores, está muito longe da minha noção de afecto. E assumo-o no Natal: onde escondido em alegados afectos, milhares de jovens são privados de passar as festas com parte da família, porque um dos pais que entende o seu afecto tem tamanha intensidade, que o seu amor é tão sublime, que os filhos dispensam a presença e amor do outro progenitor! Em nome dos afectos…

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