Os debates políticos na televisão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Julgo que a maioria dos portugueses já não tem pachorra para aturar os monólogos do Prof. Marcelo de Sousa aos domingos. Bater no ceguinho, sem ninguém a contraditar não entusiasma e a figura do Professor tornou-se fastidiosa. A Ana Sousa Mendes percebeu isso a tempo e despachou-o sem cerimónias.
Outro sim se diria para os debates a dois. Calhou-me ouvir em poucos dias a impagável D. Odete, deputada do PCP, moderada pelo jornalista Mário Crespo, primeiro com a D.Teixeira Pinto e depois com o Dr. Filipe Menezes. Apesar dos esforços do moderador, só se ouviu a D. Odete falar, de início em tom normal e depois vociferando contra os antagonistas, já que certamente em seu entender a razão das suas ideias é directamente proporcional ao barulho da voz.
Todos nós temos amigos em todos os quadrantes políticos e nos comunistas muitos recordarão sempre a eloquência e elegância de trato do saudoso Domingos Amaral, a coerência combativa de Lino de Carvalho ou, falando do nosso Alentejo, a simpatia e a obra reconhecidas do ex-presidente Carreira Marques, e o excelente trabalho da autarquia de Aljustrel, já aqui referidos. Mas quanto à D. Odete, para além do trato menos ético com os colegas de debate, qual o motivo do alarido? Perguntada pelo moderador o que lhe recordava a data recente do 11 de Setembro, respondeu com o golpe chileno do ditador Pinochet, o assassinato de Allende e os milhares de patriotas mortos, ignorando ostensivamente os ataques terroristas contra os EUA de há cinco anos, e fazendo demagogia barata com a tragédia chilena. Esquecendo aliás que já no Chile, e apesar da pretensa unidade popular, o PC chileno criticava os desvios de direita de Salvador Allende e do Partido Socialista Chileno.
Infelizmente para os comunistas primários como a D. Odete, os males do mundo resumem-se sempre aos americanos e às políticas de direita dos governos socialistas (de Mário Soares a Guterres e agora com Sócrates), esquecendo que apesar do barulho dos argumentos e de gastarem o nome aos trabalhadores, nem 10% do eleitorado representam. Ou seja de cada 10 portugueses, trabalhadores incluídos, não chega a um o voto neles.
Robert Musil, considerado um dos quatro escritores revolucionários do início do século XX, a par de James Joyce, Kafka e Proust, explica magistralmente no seu romance <b><i>As perturbações do pupilo Torless</i></b>, como colectivamente se criam imagens falsas com o tempo.
Claro que depois se falou do 11 de Setembro e aí já me recuso a comentar as patetices da D. Odete, insinuando que foi o Presidente Bush o autor (?) dos atentados contra as Torres Gémeas. Está na moda dizer mal dos americanos. Todos esquecem um país que, sendo mais recente que tantos outros, construiu a economia mais próspera do mundo e que foi determinante na vitória das forças aliadas sobre o nazismo. E que é, de alguma maneira, o símbolo da nossa maneira de estar, do nosso bem estar e de alguns valores da cultura ocidental. Bush é um Presidente medíocre, belicista, responsável pela morte de milhares de jovens americanos no Iraque numa guerra que não é a deles, mas Bush não é a América, como Salazar não foi Portugal, mas foi responsável pelos milhares de jovens portugueses que morreram em África.
Mas as cassetes, como de alguma forma nos ensinou Musil, servem para criticar o Vietname e esquecer o Afeganistão, falar do Chile e esquecer a Tchechénia, etc.etc…
E já agora, a D. Odete sempre tão pronta a denunciar os crimes do imperialismo, não tem nada para nos dizer sobre as ordens dadas pelo Sr. Putin aos militares russos para atirar a matar na Geórgia? Nem sobre o assassinato em Moscovo da jornalista Ana Politkoviskaia? Ou andará mais preocupada com os voos secretos da CIA, juntamente com a D. Ana Gomes? Nem sobre os ensaios nucleares da Coreia do Norte? (aquela grande democracia segundo o seu companheiro Bernardino)
Ninguém tem dúvidas que vai sair mais depressa uma Manif contra os voos da CIA (assunto que preocupa sobremaneira a maioria dos portugueses), do que uma manifestação de repúdio por assassinatos cobardes contra pessoas que apenas defendem os direitos humanos em qualquer região do mundo. Lamentavelmente para algumas pessoas menos bem formadas culturalmente, há mortes que convém agitar e denunciar, e outras pelas quais se nutre uma insensibilidade atroz e reaccionária. Haverá diferenças na dor dos familiares das crianças assassinadas na Palestina, em Israel ou naquela escola da Silésia? Foi também assassinada há dias na Somália, uma freira por extremistas islâmicos, em mais uma manifestação de intolerância religiosa que se seguiu às citações do Papa, perante o medo e o silêncio da cultura ocidental. Tivesse a religiosa sido morta por um míssil israelita e não faltariam os choros revoltados dos “corajosos” articulistas antiamericanos.
Naturalmente que também vemos na Televisão a “Quadratura do Círculo”, com um painel de outra dimensão cultural e abrangência partidária, que qualquer português ouve com agrado. Pacheco Pereira, Jorge Coelho e Lobo Xavier são uma lufada de ar fresco no debate político televisivo.
E os “Prós e Contras” da Fátima Campos Ferreira à segunda-feira, com temas actuais, convidados bem escolhidos e acima de tudo uma preparação excelente do programa, a fazer lembrar a Maria Elisa dos bons velhos tempos. Mas deviam existir critérios para não massacrar os portugueses com aqueles que ultrapassam os limites do bom senso e da boa educação. E não me refiro só à D. Odete ou ao Alberto João da Madeira. Sorrateiramente, o jovem Luís Delgado, que descreveu por 54 vezes os sinais de recuperação económica dos governos de Durão Barroso (veio na imprensa) e nos ameaçou com as potencialidades eleitorais de Santana Lopes, atravessou o deserto nas suas crónicas agressivas e reaccionárias e já está em todas, em tudo quanto são mesas-redondas de rádio ou televisão. Agora, com um ar muito mais cândido e até alguns elogios a José Sócrates. O rapaz tem de certeza Carta de Condução para ligeiros e pesados…
E por falar em figuras televisivas que metem repulsa a qualquer um, lá ficamos a saber que o major Valentim saiu da presidência da direcção da Liga, mas ficou na presidência da assembleia geral… E ameaçou o Sr. Filipe Vieira, diante das câmaras, para que não se meta com ele…
Felizmente, para além do obreirismo da D. Ana Gomes com os voos da CIA, o senhor deputado João Cravinho, com outra noção do que é relevante para o país, apresentou um novo projecto contra a corrupção, apoiado pelo Presidente da República (com uma actuação até agora irrepreensível) e pelo novo Procurador-Geral da República.
Era a favor deste projecto que o país se devia mobilizar.

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