O povo é sereno…[BR]até quando?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

O ar embasbacado do ministro Teixeira dos Santos, ao ser perguntado se não temia que “os portugueses se revoltassem como os gregos” perante as medidas draconianas do PEC, faz-me evocar a célebre frase do “Almirante Sem Medo”…
Um conhecido pensador do século XIX dizia que a História se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Para os mais novos, cabe recordar que o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo falava numa manifestação de apoio ao VI Governo Provisório, ao lado de Mário Soares e Sá Carneiro, quando estoiraram umas granadas de fumo. Felizmente, no Terreiro do Paço não chegou a verificar-se nenhuma tragédia – “é só fumaça…” – mas a conferência de imprensa do ministro das Finanças, em Bruxelas, soa a farsa.
A farsa começou quanto, nas eleições de Outubro e até há uma semana, Sócrates e os seus ministros juravam a pés juntos que não haveria aumento de impostos. Pois não! Começam logo pelo IVA, o mais cego e injusto porque incide sobre o consumo e afecta sobretudo os mais pobres. Nem a taxa mínima de 5% escapou, já que Sócrates embirra com a Coca-Cola e, já agora, também com o pão, o leite, as batatas, a massa, o arroz, o feijão…
Tudo isto em nome de Bruxelas e logo no “Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social”, com mais de dois milhões de portugueses abaixo do limar de pobreza, quando a fome é uma amarga realidade para muitas famílias, o desemprego já atingiu os dois dígitos e não pára de crescer… Para “ajudar”, o Governo, com o apoio da direita, faz novos cortes no já magro subsídio de desemprego e nem o Rendimento Social de Inserção escapa a este combate contra os pobres!
Para quem ainda tem trabalho, vem aí o roubo dos salários reais e também nominais, com medidas que poderão não ficar por aqui. E se o IRC (que incide sobre o lucro declarado pelas empresas) sobe 2,5%, a banca que declara lucros de muitos milhões continuará a pagar taxas reais abaixo dos 20% e a incentivar a fuga de capitais para os offshores, incluindo o da Madeira! Entretanto, a efectivação da taxa sobre as mais-valias bolsistas vai esperando por melhores dias…
E para a farsa ser completa, juram que “não há alternativa” a este ataque feroz aos que sempre pagaram a crise. Sem entrar aqui em detalhes, as “15 medidas para uma economia decente” apresentadas pelo BE permitiriam um corte de 6,5% no défice até 2013, sem privatizar a água, os CTT ou os comboios, promovendo o emprego e a justiça social.
Mas os economistas do regime, os mesmos que nos conduziram à beira do abismo, querem obrigar-nos a dar um passo em frente. De cócoras perante os especuladores, dão-nos a escolher entre morrer do mal… ou da “cura”!
Tão patético como Teixeira dos Santos foi o ar compungido de Passos Coelho: “Peço desculpa aos portugueses por apoiar as medidas que o primeiro-ministro vai anunciar ao país” e que ele, coitado, ajudou cozinhar… Por este caminho, daqui a um ano estaremos pior.
Ao exaltar as virtudes cívicas dos portugueses, Teixeira dos Santos falou como se a Grécia, um dos berços da civilização mediterrânica, fosse terra de bárbaros. De facto, o povo português é sereno e tem-no sido, talvez demasiado, nas últimas décadas. Mas não abusem! É que, se nos virmos gregos, pode estoirar por aí uma qualquer Maria da Fonte…

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima