Fogo de rodelos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Nesta terra de extremos, em que mal vinha o tempo de largarmos os casacos, o calor começava a apertar, era certo e sabido sermos visitados na soleira das portas ou cruzarmo-nos no caminho do poço com lagartos, cobras e outras espécies quejandas.
Alguns destes répteis não faziam, propriamente, qualquer mal, excepto certos tipos de cobras, muito venenosas mas eu, que me arrepiava só de as ver e corria a sete pés para as perder de vista, apenas ficava um pouco mais tranquila quando a minha mãe sentenciava, do alto da sua sabedoria: “Está na altura de se fazer um fogo de ‘rodelos’!”
Eu, que a princípio não fazia a mais pálida ideia o que era um fogo de “rodelos”, sabia o essencial. E o essencial era que a minha mãe ia resolver o problema e aqueles répteis que me pareciam perigosos e terríveis inimigos prontos a atacar a minha tranquilidade, nunca mais se atreveriam a cruzar-se no meu caminho ou a perturbar a paz das minhas tardes na soleira da porta. E sempre que as espirais daquele fumo espesso e negro, constituído por sapatos e trapos velhos, se perdia no ar, empestando tudo em volta com o seu cheiro forte e mau, eu sabia que aquele era o único incómodo mas que a partir daí eu deixaria de ser atormentada com aqueles pesadelos alicerçados em histórias que nos contavam e nas quais os “escarapões” eram os piores de todos porque subiam pelas pernas das meninas…
Passaram muitos anos sobre estes medos, alguns irracionais, mas agora que as agências de rating, do alto da sua cátedra, nos acenam com cenários catastróficos, comparando-nos, mesmo, à Grécia, ao vaticinarem a inevitabilidade da bancarrota, lembrei-me, vá-se lá saber porquê, do fogo de “rodelos” que a minha mãe fazia, chegado o Verão, para afastar a bicharada.
Na verdade, por mais que desejemos acreditar no país e sentirmo-nos contagiados pelas mensagens de confiança transmitidas quer pelo chefe do Governo, quer pelo Presidente da República, a verdade é que os sinais que nos chegam não podem deixar de nos amedrontar.
O desemprego atingiu níveis que não podem ser classificados apenas como preocupantes, ainda mais quando sabemos que aqui mesmo ao lado, em Espanha, as respectivas taxas são já as maiores da União Europeia, quase o dobro de Portugal.
O Governo adopta medidas, faseadas, para combater a crise, objectivando, sobretudo, alcançar a estabilidade e promover o crescimento da economia. A oposição acha que com estas medidas não se consegue nenhum dos objectivos propostos, antes se agrava, ainda mais, o crescimento da economia, à custa dos direitos dos trabalhadores. Os economistas degladiam-se, em debates acesos, em que a única coisa que se não acende é uma luz ao fundo do túnel que nos faça ver, a todos, qual o caminho para sairmos disto, de preferência sem sermos chamuscados.
Numa iniciativa que muitos consideram já, inédita e histórica, José Sócrates, o primeiro ministro de Portugal, reúne com Passos Coelho, o novel presidente do PSD, e no final da reunião sabe-se que ambos estão de acordo no essencial, que é a adopção e antecipação das medidas do PEC para evitar a derrapagem das contas públicas anunciada pelas agências de rating.
E se este consenso é bom para o país porque se trata duma atitude de responsabilidade por parte dos responsáveis pelos dois maiores partidos do país em torno do que é essencial, e, nesse particular, pode tranquilizar-nos, a verdade é que, por outro lado, só pode significar que a situação é mesmo muito grave ou eles não se poriam de acordo.
E é por isso que me lembrei dos medos da minha infância e das soluções sábias da minha mãe que tudo resolvia. E porque, não bastando os problemas que já tínhamos para resolver, ainda vêm agora as agências de rating com a sua credibilidade ou a falta dela, espreitar a presa, que tal se fizéssemos um fogo de “rodelos”, para afastar esta bicharada?

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima