O Hospital de Beja e a Cidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Alguém disse “para que o mal triunfe, basta que os bons fiquem de braços cruzados”.
Vem isto a propósito da imagem do Hospital de Beja, que sendo a entidade onde mais pessoas trabalham no distrito, acaba por ser mal avaliado pela cidade. Sendo que como tantas vezes acontece, muitos dos que o fizeram e mais dignificaram não procuraram o mediatismo habitual nestes tempos de <I>marketing</i>, e outros que pouco fizeram, e mal, tentaram no pouco tempo que cá passaram passar pelos grandes obreiros da instituição.
Parte da cidade terá ficado “impressionada” com “ as obras” da anterior gestão, ficando a ideia de que muito se fez, confundindo-se a quantidade com a qualidade, o fazer para mostrar e a necessidade com o oportunismo de fazer.
A realidade é que na avaliação permanente ao desempenho dos 31 Hospitais SA, feita pelo Ministério da Saúde através da Unidade de Missão, o Hospital de Beja esteve sempre classificado nos últimos três lugares, o que mostra de maneira irrefutável o que foi a gestão SA, apesar das obras e da propalada “preocupação pela qualidade”.
No “Diário Económico” de 2006-07-31, destaca-se o prejuízo acumulado de 91 milhões de Euros pelos Hospitais SA, sendo que só no ano de 2005 o Hospital de Beja teve um resultado líquido negativo de 2.244.133 euros, que não fora o perdão das dívidas ao SNS e subiria para muito mais.
Mas há outros aspectos que importa esclarecer e que explicam o motivo porque não foi o anterior conselho de administração (CA) reconduzido e acima de tudo não deixou saudades na maioria dos funcionários do Hospital.
Em primeiro lugar, não defendeu o Serviço Nacional de Saúde, tendo sido um dos primeiros Hospitais a colaborar na tentativa de destruição das carreiras médicas, através da nomeação de carácter pessoal e arbitrário para cargos de chefia, colocando médicos mais novos a chefiar colegas mais velhos, não por qualquer critério de qualidade ou mérito, mas apenas por motivos pessoais.
Depois, e em relação às tão propaladas obras amplamente mostradas às “entidades locais”, importaria ver se todo o dinheiro gasto em vários remendos e despesas correntes, cerca de 40 milhões de euros do capital social, “fazendo vida de rico em país pobre” como disse alguém da tutela, não teria sido melhor aplicado no arranque da 2ª fase do hospital, certamente com melhor utilidade para o desempenho dos profissionais do hospital e com melhor benefício para todos os doentes do distrito de Beja.
Aliás, as obras do novo bloco, conforme opinião geral, não melhoraram o seu funcionamento e muito menos a transferência do mesmo para o edifício da diálise, caso único conhecido em obras hospitalares e que veio atrasar em cerca de dois anos a transferência dos doentes em diálise para o novo edifício, com o problema conhecido da dificuldade de transporte dos doentes internados que necessitam de fazer diálise, já que por falta de passagem interna, têm de ser transportados em maca e por fora do hospital, em condições adversas e que os enfermeiros e auxiliares bem conhecem e lamentam. Sobre isto, ninguém ligado à diálise foi consultado, o que confirma que falar de “qualidade” é bonito e fica sempre bem na boca de alguns demagogos, mas é apenas isso. A insensibilidade perante as péssimas condições dos doentes tem aqui um triste exemplo, não contabilizando os prejuízos para o hospital, que decorreram da deficiente manutenção técnica da unidade e do atraso na sua adjudicação. Mas como é habitual em Portugal, fez-se a inauguração há cerca de dois anos para os habituais comedores de croquetes. Os doentes, esses, ainda nada beneficiaram com um edifício que é supostamente para eles.
Também uma referência à criação de um novo logotipo para o hospital, com cerimónia solene de apresentação, onde se gastaram mais uns milhares de euros num país onde se pedem constantes sacrifícios a todos e, ao que foi comentado na altura, o projecto terá sido atribuído a uma familiar dum elemento da administração. Despesas desnecessárias num país pobre e em crise, como se um novo logotipo constituísse uma prioridade num hospital gerido com dinheiros públicos e com prejuízos conhecidos.
E que dizer da ostentação demonstrada na Vila Galé, para onde se deslocou às quintas-feiras e durante várias semanas, a “inteligência” do hospital (nas palavras dum gestor), em <i>autopullman</i> e com direito a almoço, para “repensar e construir” um novo “farol” para o hospital. A directora do meu serviço considerou 90% daquele tempo perdido, quando nos passou a “mensagem” do “farol”. Era importante saber o que ganhou o hospital com esta ostentação e despesas perfeitamente desnecessárias. Num hospital que tinha milhões de prejuízo, havia dinheiro para estes luxos, o que infelizmente não é inédito neste país em empresas em que se gerem dinheiros públicos, dinheiro que é de todos e sai do bolso dos contribuintes, venha ele da Saúde XXI, dos fundos europeus ou de projectos aprovados superiormente.
Só por comparação, a actual administração promoveu um curso de igual âmbito para preparar a futura Unidade Local de Saúde, mas nas instalações do hospital, dispensando o <i>autopullman</i>, a Vila Galé e os almoços, que apenas alguns comem, mas são pagos por todos. Por algum motivo o hospital com a anterior administração nunca saiu dos três últimos lugares do <i>ranking </i>hospitalar, enquanto com a actual Administração é classificado entre o 6º e o 10º lugar, entre 31 hospitais. É a pequena diferença entre quem sabe de Saúde e conhece o Hospital e os seus profissionais, e aqueles que afinal de gestores tinham muito pouco e foram colocados na saúde sem qualquer <i>curriculum </i>ou experiência no sector, não passando, para além da sua presunção, de vulgares capatazes, em várias atitudes tomadas com os funcionários.
Miguel Torga, que deveria ter sido o “Nobel português”, escreveu um conto de antologia, o “Senhor Ventura”, que conta a história de um alentejano que depois de algumas desventuras pelo mundo, regressou um dia ao Alentejo, também para fazer obra. Investiu o dinheiro que também não tinha em terras que não eram dele e foi apanhado pela seca. Faliu e foi morrer longe.
Eu tenho neste hospital 27 anos de trabalho como funcionário. Conheço-o quase desde a sua fundação. Sinto por isso o dever de dizer à cidade que, para além dos doentes e da gratidão que devemos à viúva de José Joaquim Fernandes pela generosidade do seu mecenato, quem prestigiou esta casa, quem deixou obra material e humana foram, entre outros, os drs. Covas Lima, Horácio Flores, Brito Lança, Escoval Lopes, Apolino Salveano, Rabaça Cordeiro, Artur Carvalhal, os srs. enfermeiros Urbano, Donzília Caiado, Roselita Constantino, Cristina Gonçalves, D. Maria dos Anjos e outros médicos, enfermeiros, auxiliares e pessoal administrativo, já reformados e que na hora da despedida mereceram do hospital uma palavra de agradecimento e o reconhecimento de todos em jantares de fraternal despedida. Ao contrário de outros que se quiseram pôr em bicos de pés, mas saíram pela porta baixa, até porque por falta de preparação quando chegam a alguns cargos temporários de poder julgam ser a própria lei, quando todos temos direitos e deveres e, acima de tudo, direito ao bom nome. Mas as questões éticas têm o local adequado de resolução, que não os <i>media</i>, para serem resolvidas.
Admira-nos que alguns destes senhores que foram colocados na nossa terra por conhecidos empresários locais não tenham, afinal, sido aproveitados para as suas empresas, depois do auto-elogio das suas vastas qualidades. A verdade é que sempre foi muito mais fácil gastar o dinheiro do Estado do que o nosso, como aquele gestor de uma EP, que pagou 19.000 euros ao sr. Scolari por uma prelecção de 45 minutos. Impunemente, com o nosso dinheiro, que não o dele. Esperemos que estas impunidades acabem e possam ser responsabilizadas.
Uma última palavra para a actual administração. Todos sentimos que se está a pôr a casa em ordem. O crescimento dos Hospitais e a boa gestão dos seus recursos tem obrigado ao aumento dos quadros administrativos. Todos fazem falta para a melhoria da qualidade de tratamento aos doentes. Mas todos fazem falta, cada qual no seu posto, em colaboração permanente e progressiva. Os drs. Rui Sousa Santos, José Reina, José Manuel Mestre e a equipa que lideram vêm demonstrando que para além do <i>marketing </i>externo, é a dialogar, ensinar e aprender com todos os funcionários, que o Hospital de José Joaquim Fernandes se faz todos os dias. Eles conhecem a casa e o Baixo Alentejo há muitos anos. Há muito tempo e caminho para recuperar.

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