O elefante na loja de porcelanas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Não podia ter sido mais inoportuno o prefácio do prof. Cavaco Silva, no seu livro “Roteiros VI”. Numa altura em que é necessário que se aproximem partes, o Presidente da República, que deveria assumir essa responsabilidade em primeiro lugar, consegue fazer precisamente o contrário. Notável. Se já não tinha o apoio de facções substanciais do PSD, agora desbaratou na totalidade algum benefício da dúvida que poderia ter, nesta fase complicada da vida nacional, junto de alguns sectores do PS. Pior impossível, diria.
Dentro de quatro anos sairá de Belém sem chama, nem glória. Um Chefe de Estado apagado, com uma magistratura controversa e que não vive bem com a crítica, nem com o país.
Mas vamos por partes: caso o prof. Cavaco Silva ainda não tenha percebido, José Sócrates já deixou de ser primeiro-ministro de Portugal há cerca de nove meses. Depois de obter duas vitórias dadas pelos portugueses, os mesmos entenderam penalizá-lo no passado mês de Junho e o homem foi à sua vida. Ponto. Passou à história.
Pois o prof. Cavaco Silva resolveu atacar violentamente, no prefácio da sua obra, alguém que está ausente e que já não exerce funções de Estado. Uma vergonha. Se Cavaco, Presidente, tinha alguma coisa a dizer deveria, ou ter demitido José Sócrates, algo que não fez, ou guardar esta sua versão dos episódios para quando, findas as funções que exerce, as escrever nas suas memórias. O que fica mal ao Presidente não é expressar a sua opinião dos factos ocorridos. É o tom em que são feitas, o momento em que são feitas e a posição em que se encontra a pessoa a que são dirigidas. Nos três pontos anteriores, Cavaco esteve mal. Provavelmente terá pensado que, agora que Sócrates se afastou, “vou dar-lhe umas valentes caneladas políticas”. Como que a bater num morto.
Talvez agora se perceba melhor o porquê da anulação recente de uma visita à Escola Secundária António Arroio, em Lisboa. A coragem, está visto, não é o ponto forte do nosso actual Presidente da República. Prefere refugiar-se, encolher-se, esconder-se e depois, quando menos se espera, vingar-se friamente.
Indo por aí fora, recordo-me do discurso proferido na noite da segunda vitória presidencial. Um arrepio. Destilou ódios e até os mais ferrenhos seguidores ficaram boquiabertos com o pior discurso de vitória que jamais alguém fez em Portugal. Ao contrário de Sócrates, que no momento da derrota fez quiçá o melhor discurso de despedida de que há memória na democracia portuguesa, não atacando ninguém e saindo em grande.
Mas Cavaco, que tanto se queixa do ex-primeiro-ministro, não se recordará, porventura, que isto da memória em política é coisa curta, do caso das escutas, forjado em Belém, para criar uma tremenda nebulosa sobre o Governo de Sócrates, em véspera de legislativas, com a cobertura do ex-director do jornal “Público”, numa das mais graves manobras depois do 25 de abril, perpetradas contra um Governo legítimo? E vem falar de falta de lealdade institucional, sr.Presidente?
Já agora: quando tomou posse em 9 de Março de 2011, o Presidente dizia que o país vivia numa situação de emergência social e que havia limites para os sacrifícios que se podiam exigir ao comum dos cidadãos. É caso para perguntar hoje se esses limites ainda não se atingiram? Considera que os cortes enormes nos salários, o aumento brutal dos impostos, dos transportes públicos e da energia, a subida galopante do desemprego, entre outros motivos, que levam as pessoas a empobrecer de forma violenta, ainda não são suficientes para o conceito de limites do sr.Presidente? E o que tem feito o Presidente para travar esta aplicação do memorando da “troika” de forma muito mais violenta do que a própria “troika” nos impõe? Em bom rigor, nada.
O Presidente conseguiu pois dividir o país um pouco mais, partir as peças em pedaços mais miudinhos e desfazer alguma credibilidade que poderia ter para eventualmente formar consensos quando necessários.
Agora serão quatro lentos, penosos e agónicos anos até ao final do mandato. Quatro anos em que apenas o CDS e uma pequena parte do PSD lhe dará ouvidos e estará atento ao que tem para dizer ao país que é, na prática, nada.
Em termos de carácter, de coragem e de lealdade estamos falados quanto à figura do actual Presidente da República.
A galáxias de distância dos anteriores inquilinos de Belém no pós-25 de Abril. Uma pena numa altura em que Portugal tanto necessitava de um Presidente forte.

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