Candidatura do Cante Alentejano

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Francisco Orelha

presidente da Câmara Municipal de Cuba

A opinião que aqui partilho convosco é da minha inteira e única responsabilidade e em nada vincula uma tomada de posição da Câmara Municipal de Cuba. Que fique bem claro!
Quanto à candidatura do cante alentejano a património cultural imaterial da humanidade – Unesco, registo que sou a favor. Como sou a favor de todos os projectos e de todas as iniciativas que sirvam para promover e valorizar o cante alentejano. No entanto, especificamente no que concerne à candidatura apresentada por Serpa, permito-me discordar quer do método, quer dos princípios que estiveram inerentes à sua execução.
Mais do que uma convicção, é um facto. Comungam da minha opinião variadas personalidades com uma palavra relevante sobre esta matéria, como o são o musicólogo dr. Rui Viera Nery, que chegou a exercer o cargo de presidente da comissão científica da candidatura e apresentou a sua demissão por não se rever na metodologia do projecto, o dr. Francisco Colaço, presidente da Assembleia Geral da MODA, e ainda o dr. Luciano Caetano da Rosa, natural de Beja, e ex-diretor do jornal “Alentejo Popular”.
Esta é uma candidatura fragilizada, pouca democrática, em que muitos dos seus intervenientes não foram ouvidos, ou foram-no tardiamente e sem informação suficiente. Disso é exemplo a conduta para com os municípios que supostamente a devem integrar. Não houve anuência de várias das autarquias. Estamos a falar “em apanhar um comboio já em andamento” em que muitas das coisas a decidir já estão decidas, mesmo antes de ouvir parte daqueles que têm que decidir. Esse facto, levará muito provavelmente ao insucesso da mesma, o que levará à inviabilização de nova candidatura na próxima década, se persistirem na sua apresentação nos moldes actuais. Se tal vier a ocorrer, cada um terá que assumir as suas responsabilidades, junto dos parceiros, das entidades, das populações, dos alentejanos, dos portugueses.
Tenho dificuldade em perceber o porquê deste projecto ter sido há muito despoletado pela Ambaal e por todos os municípios que a integram e agora surgir Serpa, e só Serpa, como o seu proponente. O cante alentejano é da região e não de uma localidade, é património de todos os alentejanos, de todos os portugueses, e não só de alguns.
Por estes factores e outros mais, proponho que a apresentação provisória da candidatura para 30 de Março seja suspensa. Não compreendo o porquê da urgência quando sabemos que a candidatura do fado levou sete anos. É no mínimo estranho. Espero que esse porquê não resulte de razões meramente político-partidárias.
Porque não ponderar a possibilidade da candidatura ser apresentada pela Cimbal, substituta da Ambaal, entidade que originariamente despoletou este processo. Terá uma representatividade muito mais abrangente e envolverá muitos daqueles que terão uma palavra a dizer neste processo, resolvendo assim questões que na conjuntura actual surgem como lacunas. Uma delas, que aqui registo, é a ausência absoluta de grupos femininos. É verdade que o cante tem mais expressão através da voz masculina, mas existe cante, e muito, na voz das nossas mulheres, que não podem e não devem ser marginalizadas. Existem vários grupos femininos de cante alentejano que não podem ser esquecidos, ignorados e descriminados neste processo.
Discordo também da metodologia de constituição quer da comissão de honra, quer da comissão executiva. E discordo porque desconheço em absoluto, e provavelmente como eu muitos, quais os critérios que a ela presidiram.
Também não concordo com a selecção dos grupos. Qual a razão porque Serpa tem três grupos e os restantes concelhos só um, que no caso de Cuba se restringe aos “Ceifeiros”. Receio que esta tomada de posição de seleccionar grupos possa vir a criar divisionismo nos restantes. Modéstia à parte, Cuba sempre foi considerada a “catedral do cante alentejano”. Pela forma de cantar muito própria, isso é um facto por todos reconhecido. Os outros concelhos envolvidos outros argumentos terão, pelo que importa rever esta disparidade.
Tenho também alguma dificuldade em entender o método, os meios e os procedimentos inerente à apresentação e gestão da candidatura ao QREN – InAlentejo que suporta a candidatura à Unesco. Os outros municípios, a título oficial, disso nada sabem. À luz dos princípios de ética e de cordialidade entre parceiros a informação a prestar tem que ser conclusiva, até agora… apenas dúvidas. Vamos lá saber porquê.
No que concerne às verbas envolvidas no projecto, nem uma palavra. Igual postura nos procedimentos adoptados junto das empresas que estão a elaborar a candidatura, muitas questões, poucas informações.
Só um ano depois ficámos a saber o total global da mesma, isto é, 341.325 euros. Quais os critérios que foram considerados para a promoção e elaboração da candidatura, e como foram escolhidas as empresas que estão a prestar esse serviço? Interrogo-me se por essas opções responde apenas o proponente ou todos os parceiros envolvidos.
Estas minhas interrogações e sugestões são certamente comuns a muitas das entidades envolvidas, e, inquestionavelmente, dificultam a existência dos consensos necessários a um projecto desta dimensão.
Apelo à reflexão de todos, devemos procurar coerência e tentar encontrar os consensos ainda não conseguidos … a bem do cante alentejano.

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